Elas movimentam a economia e proporcionam deslocamentos das mais variadas ordens. De fato, as rodovias tornaram-se indispensáveis para a boa dinâmica entre as cidades de todo mundo. Tanto é que uma estimativa do Guia de Boas Práticas para Estradas Ecologicamente Corretas, patrocinado pelo Conselho de Conservação para a América Latina (LACC), revelou que, até 2050, serão pelo menos 25 milhões de quilômetros de novas estradas construídas, e 90% delas estarão em áreas que abrigam alguns dos refúgios da biodiversidade do planeta e se encontram em países em desenvolvimento. O grande desafio é propiciar tal progresso sem agredir o meio ambiente e as comunidades locais. A Perkons conversou com especialistas para entender melhor quais iniciativas dialogam com essa missão sustentável.

O Guia apresenta os diferentes impactos decorrentes das obras rodoviárias e o caminho ideal para que possíveis danos sejam contidos. Em tese, os projetos deveriam primeiro evitar o impacto no meio ambiente, para depois minimizá-lo, restaurá-lo e, por fim, compensá-lo. “Infelizmente, não há projeção de quantas futuras estradas seguirão estes princípios, embora esteja aumentando o número de países a considerá-los na concepção dos projetos”, ressalva o especialista ambiental e consultor contratado pela ONG The Nature Conservancy (TNC) para elaborar o Guia, Juan Quintero. A organização é a mesma que reuniu os líderes que compõem o LACC, patrocinador do estudo.

De acordo com ele, o objetivo do documento é fomentar entre as nações em desenvolvimento, sobretudo as da América Latina, a consciência da importância de planejar, projetar, construir e operar estradas com mais responsabilidade, de modo a proteger os habitats naturais. Para ele, algumas das exceções à regra são o Brasil, o Equador e a Colômbia. “Pela primeira vez na história da Colômbia, está sendo levado em conta um planejamento para conectar a vida selvagem a uma nova estrada, que passará por um corredor biológico muito sensível entre dois parques nacionais”, exemplifica Quintero.

Iniciativas similares à colombiana, contudo, são encontradas mais facilmente em nações desenvolvidas. Este é o caso dos viadutos de vegetação no Parque Nacional de Banff, no Canadá, citados pelo especialista como referência. As novas estruturas levaram à redução de 80% da mortalidade de animais, que agora podem transitar por mais de 40 passagens construídas abaixo do nível da estrada, onde circulam cerca de 25 mil veículos por dia.

Outro exemplo de sucesso nesse sentido é o Japão, onde já existem túneis construídos abaixo de uma linha ferroviária para facilitar o deslocamento de tartarugas. A iniciativa partiu da própria companhia ferroviária, que opera o trecho em parceria com um parque aquático conhecido no país. Nos primeiros oito meses de operação, ao menos dez répteis foram vistos utilizando a alternativa.

Corredor Raposo Tavares: na contramão das estatísticas

Conforme explica Quintero, uma vez adotadas, as estratégias sustentáveis de cada país variam conforme as peculiaridades apresentadas pelo local. “O Brasil tem quilômetros de rodovias que atravessam áreas sensíveis. Manter a atual ideologia de uso descontrolado da terra significará mais desflorestamento e redução de populações de animais selvagens”, associa. Vale lembrar que são classificadas como Áreas Ambientalmente Sensíveis (AAS) os espaços com características ambientais específicas que necessitam de proteção e são sensíveis aos impactos ambientais e socioculturais causados pelo desenvolvimento rodoviário. Ele reforça ainda que o índice de morte de animais silvestres em rodovias brasileiras é um dos mais elevados do mundo, sendo quinze espécies atropeladas por segundo.

Uma das estratégias para conter esses números é o Sistema Urubu, desenvolvido pelo Centro Brasileiro de Ecologia de Estrada da Universidade Federal de Lavras, de Minas Gerais. Em parceria com a Concessionária Auto Raposo Tavares (CART) – que administra um corredor de 834 quilômetros entre Bauru e Presidente Epitácio e é pioneira em alianças como essas -, a universidade mapeou regiões e ecossistemas brasileiros para prevenção de atropelamentos de animais em rodovias. Com o mesmo objetivo de preservação, a concessionária implanta cercas de condução, placas de alerta e radares de fiscalização de velocidade em locais identificados como pontos de travessia de animais silvestres. Para o caso de espécies feridas, a empresa conta com inspetores treinados para capturar e transportar o animal com segurança e agilidade.

“Investir na gestão sustentável em uma concessão rodoviária, alinha a responsabilidade ambiental ao desenvolvimento dos negócios da empresa, pois, além de oferecer segurança e conforto aos usuários, ajuda a minimizar os impactos dessas construções ao meio ambiente”, destaca o coordenador de Meio Ambiente e Sustentabilidade da concessionária, Osnir Giacon. De acordo com ele, o pilar da sustentabilidade está há anos incorporado aos projetos da empresa, que busca gerar uma economia sustentável não somente nas rodovias, mas também nos municípios.

Giacon conta que a preocupação com o meio ambiente engloba desde normas de órgãos ambientais, como é o caso do Licenciamento Ambiental, exigido pelo contrato da concessão, até práticas inovadoras, como a supressão vegetal e o remanejamento da fauna. No caso da supressão, após a elaboração de inventário da fauna existente, é removida toda vegetação mais densa e materiais considerados prejudiciais às obras de terraplanagem, tais como tocos e raízes. O remanejamento, por sua vez, consiste no resgate de animais silvestres que vivem em áreas impactadas e a transferência desses para um local seguro. “Contratamos uma empresa especializada em soluções ambientais para fazer a captura e o manejo dos animais, que são soltos em áreas próximas que não sofrerão interferência”, acrescenta.

Outra ação conduzida pela empresa, porém com o intuito de preservar a flora e fauna silvestres, é o plantio de mudas de árvores de espécies nativas em áreas degradadas e em nascentes de rios. Através do estudo de áreas sensíveis, a empresa investe ainda nas passagens de fauna, que funcionam como túneis sob o asfalto para evitar que animais cruzem a pista. “Nos próximos cinco anos, serão construídas e reformadas mais de 60 passagens como essas”, completa.

A concessionária também controla, desde 2011, os níveis de emissão de partículas na atmosfera durante as obras em rodovias, com o Programa de Fumaça Preta. O controle é feito pela metodologia calorimétrica da escola de ringelmann, que mede a densidade aparente dos gases emitidos pela combustão. Tanto o programa quanto o método de aferição são definidos pela portaria do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Redação

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