A primeira dificuldade é entrar. No meio da porta, diagonalmente, está um dos tubos da gaiola de proteção, que me obriga a um certo contorcionismo: seguro no batente da porta com uma mão, a outra na peça, e passo por cima dela, quase me espremendo. Caio direto no banco do passageiro (que obviamente não está ali nas horas de treino ou corrida), que é tão esportivo quanto o do piloto. Muito estreito, limita boa parte dos movimentos. A sensação ali é de desconforto e incômodo, mas ao mesmo tempo de amparo: “bom, se bater eu não vou sair do lugar”, penso. Depois de alguns segundos tentando descobrir o porquê do cinto de segurança estar no meio do banco, alguém me avisa que ele deve passar por meio das minhas pernas e se conectar a outras duas fivelas que passam sobre os meus ombros. Cumprimento o piloto Juliano Moro e peço “com emoção” aquela que será minha única volta no carro do Trofeo Linea.
 
A competição está no seu primeiro ano e tem como padrinho ninguém menos do que Felipe Massa, idealizador também da Fórmula Future, categoria de monopostos destinada a jovens pilotos que acabam de sair do kart. E Massa não é o único piloto famoso ligado ao Trofeo Linea, que tem em seu grid nomes como Cacá Bueno, Ricardo Maurício, Giuliano Losacco, Christian Fittipaldi, entre outros.

Pista x Rua

Uma preocupação da Fiat no Trofeo Linea foi colocar na pista um carro similar ao de rua. Diferentemente dos bólidos da Stock Car, que têm uma construção totalmente voltada para as pistas e apenas levam uma carenagem que imita o Chevrolet Vectra e o Peugeot 307 Sedan, o Linea de corrida é, de fato, o mesmo carro que anda nas ruas. Com algumas diferenças, claro.

A primeira, e principal, delas é o motor. Trata-se do mesmo bloco 1.4 litro 16V do Linea T-Jet, mas preparado para saltar dos originais 152 cv para empolgantes 215 cv. Já o câmbio muda totalmente: sai o original de cinco marchas em H, e entra um seqüencial de seis velocidades. Algumas peças são de fibra de carbono e fibra de vidro, para aliviar o peso, enquanto a suspensão é rebaixada e os pneus são do tipo slick.

Internamente, a transformação é total. Retira-se tudo que não será útil ao piloto e que pode reduzir o peso do veículo. Saem bancos, tapetes, forração, painel...Com o carro “na lata”, são instalados os equipamentos essenciais para o piloto na corrida: painel de informações, banco de competição, pedais (dispostos de maneira a facilitar o puntataco, a manobra em que o piloto freia e acelera ao mesmo tempo) e a gaiola de proteção, batizada de santantônio. O resultado é uma posição de guiar extremamente baixa – na linha de visão do piloto fica a base do para-brisa.

Vai sair. Não saiu

A maior estranheza dentro do Linea de competição é a altura em relação ao solo, baixíssima. Com isso, não enxergamos quase nada da pista, muito menos onde termina o carro.

Moro sai dos boxes já acelerando, dá um pequeno toque no freio pra equilibrar o carro, e pé embaixo, até o final da reta oposto. Vejo as placas de sinalização (que indicam o ponto de freada) se aproximando e nada do carro diminuir. De repente, o piloto troca o acelerador pelo freio, joga duas marchas para baixo e contorna a Descida do Lago. Aceleração total novamente até o Laranjinha, onde novamente se reduz. No Pinheirinho, Moro entra em velocidade, e já me preparo para a saída de frente. Para minha surpresa, o Linea continua “grudado” no chão.

Subimos até o Bico de Pato, contornado lentamente, para logo apontarmos para as últimas curvas do circuito. Na Descida da Junção, Moro faz com uma só mão ao volante, jogando marchas com a outra. Na Junção, nova freada brusca para então subir até os boxes. Infelizmente, depois de cerca de 2 minutos e alguns segundos, acabou a volta.

Sábado e domingo, em Interlagos

A competição já passou por Rio de Janeiro e Londrina, e ainda tem pela frente Curitiba (25 e 26 de setembro), Brasília (16 e 17 de outubro) e Porto Alegre (11 e 12 de dezembro). Neste final de semana, o Trofeo Linea passou por São Paulo, no autódromo de Interlagos.

Rodrigo Mora

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