Era uma vez um pobre camponês que resolveu criar uma empresa e 15 anos depois virou o maior produtor de baterias de celulares do mundo. Não, não estamos falando de uma fábula e sim da realidade. O tal camponês chama-se Wang Chuanfu, é dono da montadora BYD e já foi o homem mais rico da China em 2009 – hoje ocupa uma posição intermediária no ranking da Forbes, com mais de US$ 2 bilhões de patrimônio.

Fenômeno comum e suspeito na China que flerta com o capitalismo, Chuanfu viu sua sorte mudar quando apostou na produção de baterias de íon-lítio, usadas pelos celulares e que agora estão chegando aos carros elétricos e híbridos. Com isso, virou o maior fabricante do gênero no mundo a ponto de chamar a atenção de ninguém menos que Warren Buffett, o Midas dos investimentos nos Estados Unidos e 3º ser humano mais rico do planeta.

Buffett enxergou no colega chinês um visionário que planejava tornar sua montadora a maior do mundo em 2025. Na lógica simples do investidor, como o futuro é reservado aos carros elétricos e a BYD tem a alma deles – suas baterias – estava aí uma oportunidade de ouro, ou de íon-lítio, o mais novo candidato a commodity da economia.

Porta que cai

Com um padrinho famoso e um veículo supostamente revolucionário, o e6, a BYD passou os últimos anos gozando de um prestígio que, para muitos, não é justo. Um artigo recente da agência Reuters comentava que a montadora na verdade tinha mais defeitos que virtudes, entre elas copiar descaradamente carros famosos como o Corolla e ter casos de concessionários na China que trocavam os emblemas da marca pelos da Toyota ou Honda a fim de “valorizar” seus produtos.

Durante o lançamento da JAC no Brasil dias atrás, Sérgio Habib, representante da marca chinesa e conhecido por trazer a Citroën para o Brasil na década de 1990, fez questão de comparar a BYD à sua parceira: “quando visitei a China em busca de uma marca de automóveis constatei que a BYD fazia os piores carros que já vi na minha vida”, disse Habib. Opinião compartilhada por um especialista entrevistado pela Reuters: “se você bater a porta de um BYD com muita força é possível que ela simplesmente caia”, explicou.

Um engenheiro ouvido pelo AUTOO e que teve contato com vários produtos chineses apontou uma das razões, a opção por não ter fornecedores. “As outras montadoras chinesas utilizam sistemistas globais como Bosch, Visteon ou Delhpi, já a BYD produz de parafusos ao motor”, explicou. Segundo ele, montadora nenhuma no mundo segue essa filosofia, comum em outros tempos e que se mostrou inviável atualmente.

Primeira chinesa nos EUA

Aparentemente, nem mesmo o recente ceticismo fez a BYD mudar seus planos de estrear no exterior justamente no mercado mais saturado do mundo, o americano. A montadora chinesa já tem uma concessionária piloto na Califórnia e forneceu uma dezena de carros para o governo do estado americano como forma de avaliar sua utilização.

A estreia da marca em solo americano já foi várias vezes remarcada e agora é prevista para o início de 2012. Além de produtos mais comuns, a BYD quer tornar o e6, seu elétrico, a grande estrela do show-room. Com linhas próprias, o e6 promete mais desempenho e autonomia que o Leaf, da Nissan, hoje o elétrico mais bem sucedido do mercado. O preço deve girar em torno de US$ 32 mil já incluído o subsídio oferecido pelo governo.

Um dos temores da empresa é sofrer processos de outras montadoras quando deixar o hoje protegido território chinês – onde consta que a justiça local fez vistas grossas a respeito de seus clones automotivos -, conforme informação vazada pelo site Wikileaks.

Patente registrada

Se os Estados Unidos preocupam, o Brasil pode ser a saída a curto prazo. A BYD registrou no mês de fevereiro a patente do sedã i6 no INPI, um veículo mais luxuoso e desenho próprio. A montadora, porém, não tem representante anunciado no país ainda – rumores anteriores davam conta que o grupo CAOA seria o favorito.

Para uma marca que sonha alto – a sigla significa Construa Seus Sonhos em inglês -, a BYD anda hoje mais perto de um pesadelo.

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO, é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

Ricardo Meier | http://www.jcceditorial.com.br/

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