Dê a partida em seu carro e não escute nada. Ou quase nada – apenas o ruído de um gerador alimentando um motor elétrico. Sem dúvida, o ato de dirigir não será o mesmo dentro de poucos anos.

Não importa a razão – petróleo em falta, crise financeira, camada de ozônio –, o fato é que a indústria automobilística definitivamente apostou no modelo híbrido (que reúne o motor a combustão com a bateria) ou no 100% elétrico. Etanol? Por ora, são poucas as marcas e países que dominam sua tecnologia e não temem o impacto sobre as commodities, que influenciam o preço dos alimentos.

Considerada limpa, a energia elétrica teria diversas vantagens sobre o famoso óleo de origem mineral: é infinita, não emite CO² e nem poluição sonora. Além disso, a maior parte dos motoristas no mundo se desloca por trechos curtos durante a semana, o que exige uma carga de eletricidade baixa.

Modelos plug-in

Usar baterias em carros não é uma novidade. A própria GM, tão criticada pelos carros beberrões, lançou na década de 1990 o EV1, veículo elétrico que foi um fracasso devido ao curto alcance e a falta de pontos de reabastecimento, sem falar no desinteresse da marca. Esses problemas hoje são parte do passado desde que uma ideia simples foi adotada, o método plug-in de reabastecimento. Da mesma forma que um telefone celular, a nova geração de veículos elétricos é abastecida na tomada de casa, durante a noite.

As baterias têm maior capacidade também e os motores estão mais potentes. Para completar, surgiu o conceito híbrido, que se resume em um segundo motor ¬– nesse caso a combustão – e utilizado apenas para recarregar a bateria, embora existam modelos em que esse mesmo propulsor acabe fazendo o principal papel no deslocamento do automóvel.

O recém concluído Salão de Detroit, apesar de esvaziado, foi palco de diversos modelos EV, como são chamados nos Estados Unidos os veículos elétricos. A certeza de que eles representam o futuro é tão grande que praticamente todas as marcas mostraram carros assim, desde minis como o Toyota EV até esportivos como o Dodge Circuit EV.

Pioneira nesse sentido, a Toyota hoje vive a gloria de ter o veículo de série mais famoso do tipo, o Prius, que chegou à sua 3ª geração. Para acabar com esse reinado, a GM investe todas as fichas no Volt, projeto 100% elétrico que deve chegar ao mercado norte-americano em 2010. Durante o salão, o fabricante anunciou a fornecedora das baterias de lítio que equiparão o Volt e consideradas o item chave do modelo, a gigante coreana LG.

Baterias de lítio podem virar um problema global

A meta dos ambientalistas é superar a marca de 40 mpg, que virou até ONG nos Estados Unidos. A referência nada mais é que a média de consumo em milhas por galão e equivale a 17 km por litro. Acostumados ao baixo rendimento dos motores V8 de seus utilitários, os americanos consideram que acima de 40 milhas por galão, um veículo torna-se viável pelo aspecto ambiental o que, para os padrões brasileiros, é o consumo que um modelo popular pode atingir.

Os defensores dos carros elétricos, no entanto, nem sempre consideram alguns problemas futuros. Apesar de infinitamente menos poluente que o petróleo, a eletricidade também tem reflexos negativos no meioambiente. Hidrelétricas alteram o ecossistema de onde são construídas e as termelétricas emitem poluentes. E o pior: as baterias que usam o lítio precisarão de locais de coleta apropriados quando perderam sua capacidade de armazenar energia.

E há ainda o fator político. O lítio é um elemento relativamente raro e localizado em regiões instáveis como o deserto do Atacama e o Tibete. Ou seja, novos materiais terão de ser usados na confecção das baterias, sob pena de o mundo viver dependente de uma Opep do lítio.

Nova maneira de dirigir

Se os EVs terão ou não a primazia de ser o principal tipo de automóvel na próxima década, não vem ao caso. A verdade é que os proprietários de veículos elétricos terão uma rotina diferente dos demais. Terão de lembrar de ligar seus carros na tomada da garagem à noite, se preocupar com pedestres já que seus automóveis não farão barulho e monitorar o melhor perfil de consumo, mostrado a ele no painel central. Sem dúvida, uma direção menos divertida, porém, mais segura e preocupada com nosso planeta.

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

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