Jornalistas e profissionais de marketing das montadoras adoram se apegar aos critérios para definir qual modelo concorre com qual. Lembra até discussão de fanáticos por futebol e suas minúcias táticas: “veículo X é um hatch, minivan, monovolume ou perua?”, nos perguntamos.

O que muitas vezes esquecemos é que o consumidor não se prende a esses parâmetros com a mesma dedicação que nós. A maior e mais importante referência chama-se preço. Se o carro cabe no bolso não importa se é um crossover ou uma multivan misturada com cupê, - basta dizer que é um concorrente válido para esse cliente.

Olhando por esse ângulo, nos deparamos com o Astra 2010. Nova geração? Não. Visual modificado? Sim, mas nada inédito. Algum equipamento revolucionário? Passou longe. Mas o que o veterano hatch médio (olha aí nossa mania de classificar de novo) tem como novidade? Justamente o preço.

Sai pelos mesmos R$ 44 389 da versão Advantage 2009, que era meio basicona, mas traz uma série de equipamentos que antes pertenciam à  finada versão Elegance, entre eles, bancos de veludo, ar digital, faróis de neblina, rodas aro 16 de liga leve e desenho do antigo SS, e retrovisor eletrocrômico. Um generoso cheque de mais de R$ 8 mil que a Chevrolet resolveu oferecer a quem escolher o carro.

Esmola grande...

Mas o que motivou a montadora a melhorar o pacote do Astra? Parece até mesmo muita bondade para acreditar. O modelo é ainda o mais vendido do mercado, é verdade, mas 2009 foi o primeiro ano em que ele chegou a ver no retrovisor seus concorrentes, o Golf e o Stilo. Além disso, já são dez anos em produção e certamente o carro já se pagou há muito tempo, permitindo alguma ousadia nos descontos – veja aí o Corsa Classic e o Uno Mille para confirmar a teoria.

De qualquer modo, a faixa entre R$ 40 mil e R$ 45 mil ficará interessante. Nesse intervalo de preço, é possível comprar um hatch compacto equipado como o Sandero, da Renault. A versão Privilège, a top com motor 1.6 16V, custa R$ 43 490 e traz ar, direção hidráulica, trio elétrico, faróis de neblina, computador de bordo e rádio com CD Player MP3.

O Astra 2010 tem pacote semelhante, mas seu ar-condicionado é digital e suas rodas, aro 16 contra aro 15 do Renault, além de ter retrovisor eletrocrômico. Isso porque não citamos o motor 2.0 de 140 cv contra o 1.6 de 112 cv do Sandero.

Como se vê, o Chevrolet, mesmo esquecendo o fato de ser um carro de uma categoria maior, consegue ser mais vantajoso que um compacto. Claro, há outro lado da moeda. O visual já cansou, não dá para negar e há sempre a preocupação com o consumo alto do motor, mesmo após as melhorias adotadas no começo do ano.

Rivais mais longe?

Se o embate com um carro menor já mostra vantagens, contra as versões básicas dos seus tradicionais rivais, a diferença ficou maior. Golf, Stilo e Focus cobram muito mais para oferecer o mesmo que o Astra. O hatch da Ford, por exemplo, sai por R$ 48 mil, mas traz rodas aro 15 e não inclui chave com acionamento remoto e alarme.

A Chevrolet quer manter um volume mensal de vendas de 3 000 unidades atingido em junho, patamar que o Astra conseguiu no passado, mas que anda complicado de obter agora. Talvez a saída seja mesmo roubar clientes de carros menores que não perdem a chance de subir mais um degrau de status.

Mas se o Astra pode incomodar hatches compactos, como ficará o Agile, o novo modelo da marca para esse segmento? Com motor 1.4, o carro promete bastante espaço interno e fôlego para brigar com os grandões Fox e Sandero. Questionamos o diretor de marketing da Chevrolet, Gustavo Colossi, se haveria essa canibalização: “não posso adiantar nada, mas garanto que não, são carros para públicos diferentes”, nos disse o argentino radicado no Chile. Pelo jeito, só restam mesmo os jornalistas acreditando na divisão das categorias...

Chevrolet Astra 2010 manual
Chevrolet Astra 2010 automático

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

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