Pelo tamanho da apresentação à imprensa, de cerca de oito horas, já se vê como será longa a jornada da Chrysler para recuperar-se do baque de 2009, ano em que quase faliu. Comprada pela Fiat, a montadora norte-americana divulgou nesta quarta-feira seus planos para os próximos cinco anos.

A base de toda a estratégia virá da Itália. Sim, todo arsenal tecnológico da Fiat será usado para renovar a linha de carros da Chrysler, Dodge, Jeep e da nova marca RAM, nome da picape que agora será responsável pelos utilitários.

Motores Multiair e Multijet (diesel), câmbio de dupla embreagem e plataformas de veículos passarão a equipar os até então gastões carros americanos. Mas a Chrysler também desenvolverá tecnologia local. Um novo motor V6 batizado de Pentastar (em referência ao logo da empresa) substituirá a linha atual e os V8 HEMI, os mais potentes da linha, serão redesenhados.

O V6 Pentastar terá 280 cv e cerca de 35 kgfm de torque e estreará no novo Jeep Grand Cherokee, que será lançado em 2010. Para se ter uma ideia da ineficiência da Chrysler, há motores hoje em sua linha que mal conseguem entregar 50 cv por litro – os motores Multiar da Fiat geram o dobro desse valor.

Marca RAM

Uma das primeiras medidas da nova direção foi dar foco para cada marca existente hoje. A RAM, como dito, será responsável pelas picapes e utilitários de trabalho, estes baseados em vans da Fiat. A Jeep focará no seu mercado off-road, como já é tradição e por ser a marca mais internacional do grupo. Já a Dodge, além de perder a linha de utilitários, será a marca jovem do grupo, com vários modelos, entre compactos e esportivos. Por fim, a Chrysler tentará criar uma aura de sofisticação para brigar no segmento Premium. Na visão da Fiat, ela tem muito em comum com a Lancia, a discreta marca de luxo italiana, e por isso ambas serão vendidas sob o mesmo teto.

Enquanto Dodge e RAM terão uma atuação mais “regional”, segundo o comunicado, Chrysler e Jeep serão as marcas mais focadas no mercado internacional. Em relação ao Brasil, quase não houve referências, apenas que a Fiat mineira participará da sinergia para redução de custos e que ela assumirá a estrutura de suporte de pós-venda (a filial brasileira da Chrysler não quis se pronunciar a respeito).

Novos e velhos modelos

Já em 2010, a Fiat promoverá mudanças de conteúdo e visual nos modelos da Chrysler. Carros como o Sebring, Town & Country, Wrangler e Journey serão apresentados com novidades. Mas veículos inéditos também estão previstos: um novo crossover de sete lugares na Dodge, a nova geração do Charger, do 300C e do Grand Cherokee serão reveladas durante o ano que vem.

Também em 2010 o Fiat Cinquecento fabricado no México chegará ao mercado norte-americano e será vendido nas lojas da Chrysler. Por falar em Fiat, os futuros automóveis da Chrysler que usarão a base e a tecnologia da marca italiana levarão ainda dois anos para surgir. A Dodge, por exemplo, terá dois novos sedãs em 2012 e 2013 com tecnologia italiana além de um compacto importado da Fiat diretamente.

Também em 2013 a Jeep estreará três novos modelos, um pequeno SUV, o sucessor do Patriot e do Compass, e o novo Liberty, conhecido aqui como Cherokee Sport. Todos esses carros serão baseados em modelos da Fiat.

A Chrysler segue caminho semelhante ao da Dodge: venderá um modelo compacto da Fiat em 2013, terá um sedã compacto em 2012, o sucessor do Sebring no ano seguinte e um inédito crossover médio, todos usando tecnologia italiana.

A marca RAM é onde a Fiat menos terá influência – ao contrário, é provável que ela até utilize o know-how dos americanos para produzir suas próprias picapes. Mas a RAM venderá a partir de 2012 duas vans da Fiat de porte médio e grande.

Dando adeus

Num plano assim sempre há gente que fica de fora. Não foi diferente com a Chrysler. As vítimas oficiais são a picape Dakota, que pode vir a ser substituída no futuro, o PT Cruiser e o esportivo Viper, embora a Chrysler tenha dito que haverá um sucessor baseado em um modelo italiano – talvez Ferrari, talvez Alfa Romeo.

Além de economizar cerca de US$ 3 bilhões com sinergias na produção, desenvolvimento e compras, a aliança Chrysler-Fiat quer vender mais que o dobro do volume atual em 2014. Em 2009, a estimativa é terminar o ano com 1,3 milhão de unidades vendidas e dentro de cinco anos atingir 2,8 milhões.

Ricardo Meier

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