A Citroën, assim como a Audi, teve uma estreia com o pé direito no Brasil na década de 90, muito em função dos representantes nacionais. Enquanto a marca alemã, até então desconhecida por aqui, foi trabalhada pelo grupo empresarial do piloto Ayrton Senna, a fabricante francesa encontrou no empresário Sergio Habib o tom ideal para cultivar uma imagem ‘premium’ que nem no país de origem existia.

No entanto, após as matrizes assumirem suas filiais no Brasil, ambas sofreram para reencontrar o caminho das pedras, algo que a Audi já conseguiu. Já a Citroën anda em busca de uma identidade. Seu estande no Salão do Automóvel é a prova disso. Ele mescla ensaios de design em modelos como o ‘C3 City Rider’, o sedã ‘C4 Lounge Sportmarine’ e o ‘Aircross Beachcrosser’ na tentativa de recolocar seus três veículos mais conhecidos em destaque. Além disso, trouxe a minivan C4 Picasso reestilizada e confirmada para venda no país em 2017, porém, com participação bastante modesta no mercado.

Mas também inclui conceitos como E-Mehári, um buggy elétrico que tenta mostrar que a marca é inovadora e ousada, embora pouca coisa disso tenha sido efetivamente lançada no mercado – ou quando são não tem o efeito esperado. Até o estande em si foge do padrão geral ao buscar parecer-se com um imenso lounge com várias atrações interativas.

Presença ilustre

Tudo lindo, tudo bonito, inclusive o slogan ‘Be Different, Feel Good” (seja diferente, sinta-se bem), mas na prática a situação da Citroën não é nada boa. A marca está em queda livre nas vendas desde 2011 quando emplacou 90 mil veículos. Desde então, cada vez menos carros são vendidos ano a ano – em 2016 foram apenas 20 mil unidades até outubro.

Ironia é que os papéis se inverteram: se antes a Peugeot é que vivia uma fase de incertezas agora a irmã está se reencontrando no país com os novos modelos 208 e 2008 e já vende mais que a Citroën. O calvário da marca, no entanto, já havia começado antes disso quando um comunicado confuso da PSA, a holding que a controla, estabeleceu um novo papel para ela, como uma marca mais simples e barata que a Peugeot. Logo em seguida houve um desmentido, mas a situação não ficou clara, como até hoje se percebe.

O problema da Citroën em si está no fato de que aquele momento ‘premium’ passou. Anos de descuido com o pós-venda macularam a imagem tanto dela quanto de outras francesas. Ao mesmo tempo, o consumidor passou a valorizar as montadoras japonesas e coreanas, que se preocuparam mais em manter o cliente cativo.

Por essa razão, a tentativa de tornar a Citroën uma grife como o que vemos em marcas de motocicletas, tem sido inócua. Como as vendas revelam, não existe essa identificação no setor automobilístico, ou seja, as pessoas tendem a ser mais volúveis e mudar de marca.

 
 
Citroën Aircross 2017
 
Citroën Aircross 2017
Citroën Aircross 2017
Citroën Aircross 2017
 
Citroën Aircross 2017
Citroën Aircross 2017
Citroën C4 Lounge 2017
 
Citroën C4 Lounge 2017
Citroën C4 Lounge 2017
Citroën C4 Lounge 2017
 
Citroën C4 Lounge 2017
Citroën C4 Lounge 2017
Citroën C4 Picasso 2017
 
Citroën C4 Picasso 2017
Citroën C4 Picasso 2017
Citroën Cactus Concept
 
Citroën Cactus Concept
Citroën Cactus Concept
Conceito elétrico e-Mehari
 
Conceito elétrico e-Mehari
Conceito elétrico e-Mehari
Citroën C3 2017
 
Citroën C3 2017
Citroën C3 2017
 
 

Embora ainda persista nesse conceito ‘artístico’, a Citroën já demonstra que algo está mudando. O lançamento do e-commerce St@rt, um site exclusivo para venda direta na internet. Nele é possível adquirir os modelos C3 e Aircross por preços mais acessíveis e em qualquer local e momento. Outra iniciativa positiva é o Citroën Advisor, um site para que o cliente opine a respeito dos serviços de pós-venda.

Além disso, a presença da CEO mundial da Citroën, Linda Jackson, no Salão do Automóvel, revela a preocupação da marca em mostrar que as coisas mudarão para melhor. A executiva, inclusive, prometeu que serão lançados novos modelos no Brasil nos próximos anos, incluindo o SUV Cactus, presente no estande numa versão conceitual. De fato, o Cactus já é testado em solo brasileiro e deve surgir como uma leitura nacional do modelo, com plataforma mais simples – talvez a mesma do Peugeot 2008.

São sinais promissores após tantos anos de indefinição, mas eles não significam uma volta imediata aos tempos em que a Citroën disputava clientes com as marcas de luxo alemãs. Pelo contrário, a realidade hoje é bem menos colorida: para emplacar no Brasil é preciso provar que um carro francês é tão bom ou melhor que um japonês ou coreano. Talvez o slogan da Citroën devesse mudar para “Be Better, Feel Japanese” (Seja melhor, sinta-se japonês).

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

Ricardo Meier |