Em meio aos altos e baixos do mercado de automóveis no Brasil, algumas montadoras vivem uma realidade bem diferente. É o caso da Honda. A marca japonesa, que chegou ao país após a abertura das importações na década de 90 e inaguruou sua primeira fábrica de automóveis em 1997, não consegue dar conta dos pedidos pelos seus carros.

A situação gerou uma confissão um tanto rara no setor de seu vice-presidente Carlos Eigi, responsável pela produção. “Sumaré foi um erro”, confessou ao explicar porque a Honda decidiu em vez de ampliar a unidade, que conta com uma área total de 1,7 milhão de metros quadrados, construir uma nova em Itirapina. “O terreno aqui é acidentado e deveríamos ter construído a linha de montagem no alto e não na parte baixa”.

Segundo Eigi, com prédios separados e em níveis diferentes, a fábrica não é tão eficiente, algo que Itirapina resolverá já que todas as fases da produção estarão num mesmo nível e interligadas.

A afirmação do executivo, no entanto, é típica da modéstia japnesa. A ‘ineficiência’ de Sumaré significa na prática, uma produtivadade 70% maior que a da Fiat, por exemplo, montadora conhecida por investir pesado nesse sentido. Mas, para a Honda, é pouco. A marca quer aumentar em mais 50% a produtividade de Itirapina que terá a mesma capacidade de Sumaré, mas com dois terços dos funcionários.

Catalisadora das mudanças

Andar pela linha de montagem da empresa em Sumaré é se deparar com vários robôs e processos automatizados. A empresa investe regularmente em inovações para elevar a produtividade e a qualidade de seus carros. Mas um setor vazio da fábrica chamou a atenção. É a linha de produção de câmbios manuais, que estava parada. De acordo com o responsável pelo setor, a baixa demanda pela versão manual acaba tornando a linha pouco utilizada.

Questionado por isso, a Honda admitiu que acaba sendo uma espécie de catalisadora das mudanças no setor. Segundo ela, em regiões desenvolvidas da cidade de São Paulo, por exemplo, o perfil do cliente já não compra mais câmbios manuais seja para Fit, City, Civic ou HR-V, os quatro modelos produzidos no país.

Mas essa clientela mais exigente também causa problemas. O caso mais notório é do HR-V. O SUV mal chegou ao mercado e tem fila de espera por algumas versões como a top EX-L, que leva 100 dias para ser entregue.

Com uma rede global de abastecimento, a Honda reconhece que tem gargalos para aumentar a produção já que parte das peças vêm de outros países como Indonésia e Índia e onde o carro também tem bastante procura.

Uma saída seria criar um terceiro turno em Sumaré, mas Eigi optou por instituir hora extra na lijha de montagem. Com isso, a produção diária de 540 carros saltou para cerca de 650 unidades, não suficiente para suprir essa demanda.

A saída está há alguma dezenas de quilômetros dali, na nova fábrica de Itirapina, que deve ser concluída até o final do ano. Ela comecará a operar em 2016 produzindo o Fit e abrindo espaço para que mais HR-V sejam fabricados. Enquanto isso, a montadora segue num mundo à parte, onde não há crise: “também sentimos os efeitos da desaceleração, mas menos do que a concorrência”, disse Paulo Takeuchi, vice-presidente de relações institucionais, seguindo o discurso modesto da montadora.

 
 
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Ricardo Meier

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