A China é um país interessante - e impressionante. Além de ser o segundo maior em extensão terrestre é também o país mais populoso do mundo, com mais de 1,36 bilhão de habitantes, ou seja, quase um quinto da população da Terra está lá. Além de um transporte público eficiente, para toda essa gente se locomover são necessários muitos, muitos veículos. Para nós, do AUTOO, os superlativos acerca do país asiático ficaram mais evidentes na última edição do Salão de Xangai, que pudemos cobrir in loco. 

Neste ano, o salão chinês foi realizado pela primeira vez no novo Centro Nacional de Exposições de Xangai, um pavilhão gigantesco em forma de flor com 350 mil m2 de área de exposição (o equivalente a 100 campos de futebol!). O piso recém acabado do imponente pavilhão recebeu 1.325 veículos, dos quais 109 eram lançamentos.

As novidades e conceitos revelados pelas principais montadoras globais no evento – as mais importantes estão lá, diferentemente de salões europeus ou norte-americanos, onde algumas montadoras não comparecem – reiteram a importância deste mercado no mundo. Obviamente porque todas as marcas querem uma fatia deste bolo já que a China representa 27% do total de carros vendidos no mundo.

Enquanto o Brasil - o 4º maior mercado do mundo – fechou 2014 com 3,3 milhões de unidades vendidas, a China acumulou no mesmo período 21 milhões de veículos emplacados. Todavia, o que ficou evidente no salão, foi um pungente contraponto face às ofertas das desconhecidas (para a maioria dos ocidentais) e numerosas montadoras locais, que ainda estão longe de ser as preferidas dos chineses.

As chinesas ainda não caíram no gosto dos chineses

Contamos mais de 70 marcas chinesas, que hoje representam 47% do market share do país, segundo Sérgio Habib, presidente da JAC Motors do Brasil. As marcas chinesas vêm ganhando espaço em detrimentos das japonesas, como a Toyota, por exemplo, cujas vendas têm diminuído na China, mas também pela leva de novos SUVs lançados pelas montadoras locais. Mesmo assim, muito há de mudar para que as marcas “da casa” ganhem espaço no coração e na carteira de seus conterrâneos, que ainda preferem marcas estrangeiras.

De acordo com Habib, apenas cinco marcas chinesas emplacam mais de 100 mil unidades por ano (vale lembrar que não estamos incluindo comerciais leves e caminhões nesta conta). A chinesa que mais vende é a Wuling, com mais de 1,6 milhão de unidades/ano, ocupando o segundo lugar no ranking das mais vendidas. Outra marca local que vem crescendo é a ChangAn, na terceira posição com 1,1 milhão de carros vendidos.

Mesmo assim, os olhos puxados dos chineses brilham mesmo é pela alemã Volkswagen. Sozinha, a montadora vende na China anualmente mais da metade de todo o mercado de automóveis no Brasil. Em 2014, foram mais de 2,7 milhões de unidades comercializadas, enquanto o Grupo Volkswagen (que inclui Audi, Skoda, SEAT, Bentley, Lamborghini, entre outros) somou exatos 3.706.077 veículos vendidos no país asiático em 2014.

Embora não tão otimista como no ano passado, a estimativa é que o mercado automotivo cresça 6% na China em 2015, com 19 milhões de veículos leves emplacados neste ano. Enquanto os comerciais leves seriam responsáveis por mais 6 milhões de unidades, um total de 25 milhões de carros.

Criamos pouco, copiamos muito

As marcas chinesas que não conseguem seu lugar ao sol parecem menos entusiasmadas com o mercado. Depois de passar décadas procurando parcerias (joint ventures) com marcas estrangeiras, elas lutam para progredir no mercado doméstico. Praticamente 8 em 10 sedãs vendidos na China são importados, o que coloca as montadoras nacionais na rota do fracasso em busca de cotas de mercado.

O problema é que não é fácil competir com as marcas estrangeiras. Parte da culpa é do próprio governo, que incentiva o acesso a tecnologias automotivas de fora e não investe no desenvolvimento de sua própria. As montadoras chinesas recebem tecnologia de Wolfsburg a Detroit, por exemplo, e simplesmente copiam, reproduzem, fazem (muito bem) igualzinho. Para piorar, os projetos são transferidos para sósias de modelos conhecidos mundialmente como o Range Rover Evoque. O Landwind X7 pode ser o mais emblemático, mas há uma infinidade de outros modelos “parecidos” com carros ocidentais, basta dar uma voltinha em algum pavilhão.

Em suma, até que os chineses comecem a investir em pesquisa e desenvolvimento próprios, sua capacidade de competir com as grandes montadoras estrangeiras permanecerá atrofiada. E, circulando pelo Salão de Xangai, encontramos poucas evidências de que isso está acontecendo.

Prefiro “oliginal”

Para que houvesse uma guinada das marcas locais no mercado interno, os consumidores devem primeiro mudar seus hábitos de compra. Os chineses têm preferencia declarada por marcas estrangeiras, eles optam por carros importados não apenas porque os consideram melhores, mas sim por uma questão de marca. Para a maioria dos chineses, há muito mais status em ter a marca do vizinho e não a feita em casa. E isso não vale apenas para o mercado automotivo, o próprio Habib confirma que mesmo grifes de roupas ou bolsas, com versões falsificadas (reproduzidas fielmente), fazem sucesso com a chinesada. “Eles pagam mais caro, mas fazem questão de ter o produto original”, explica.

 
 
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Carro fácil, só se for elétrico

Mesmo neste mercado efervescente, não é tão simples assim ter um carro na China, especialmente nas grandes cidades. Oito cidades chinesas possuem limite de emplacamento e Xangai é uma delas. Com cerca de 20 milhões habitantes, qualquer morador da cidade que queira ter um veículo deve primeiro se cadastrar em um site para batalhar pela placa, vendida em leilão. 

Os leilões acontecem mensalmente naquele velho esquema do "quem dá mais". Apenas 12 mil placas são disponibilizadas para carros de passeio e cada placa chega a sair pela bagatela de US$ 15 mil, o equivalente a R$ 45 mil reais – valor apenas da placa, sem contar o montante que o sujeito irá pagar pelo carro! A demanda por veículos é tanta, que apenas 0,8% das pessoas que se cadastram para conseguir uma placa, obtêm êxito. Parece muito, mas 12 mil é um número bem abaixo dos cerca de 26 mil emplacamentos mensais de uma cidade como São Paulo, com 11 milhões de habitantes, praticamente metade de Xangai.

Como nesta conta é o dinheiro que fala mais alto, é fácil entender o porquê da quantidade de carrões como Ferrari, Porsche e Lamborghini rodando pelas ruas de Xangai.

Para os modelos elétricos a história é outra, o subsídio do governo pode chegar a 60% do valor do carro (para efeito de comparação, nos Estados Unidos o governo norte-americano subsidia cerca de 20%). Além disso, os carros elétricos não fazem parte da cota, ou seja, você não precisa pagar a placa, o que representa um baita incentivo para o bolso.

Além de contribuir para uma menor emissão de poluentes, os elétricos se mostram vantajosos na China por outro motivo. Enquanto a China importa petróleo, as centrais térmicas a base de carvão são abundantes no País, com reservas energéticas para mais de 200 anos.

Dos mais de 100 modelos elétricos expostos no Salão de Xangai, 51 deles eram novidades de montadoras locais. Talvez este seja o nicho onde as fabricantes chinesas devem mostrar avanços, já que elas irão continuar na luta para progredir em meio as estrangeiras e sobreviver em um mercado cada vez mais abarrotado.

Karina Simões

Karina Simões |