De cada dois brasileiros que entram numa concessionária e saem de lá com um automóvel zero km apenas um deles leva um veículo das marcas Fiat, Volkswagen, Chevrolet e Ford. Isso mesmo. Em 2016, as quatro montadoras ‘tradicionais’ já não motivam tanto os consumidores como no passado.

Passado esse não tão distante: há cinco anos, de cada três carros vendidos, dois eram do quarteto. Os números do primeiro semestre de 2016 não só revelam uma senhora queda nas vendas, da ordem de 25% em relação ao já ruim 2015, mas também que o brasileiro já não leva tanto em conta aquela famosa imagem de “confiança” em produtos já conhecidos do mercado como o Gol ou o Uno, dois modelos que disputaram por muito tempo a preferência da maior parte dos brasileiros.

A leitura que se pode fazer dessa situação mostra que não se trata apenas de uma busca por marcas novas, afinal alguns fabricantes com pouco tempo de Brasil também não se beneficiaram dessa migração. É, sim, um público que está mais exigente e que busca perceber maior valor no veículo que escolhe comprar.

Prova disso é que, das quatro grandes, apenas a Chevrolet conseguiu aumentar sua participação de um ano para cá. Grandes responsáveis por reter essa clientela são o Onix e o Prisma, que dominam seus segmentos. Embora ainda devam um motor moderno, os dois se sobressaem pelo porte e itens de série, mas, sobretudo, por terem sido projetados com um sistema multimídia, o MyLink, que não parece um acessório como o de alguns concorrentes.

A montadora norte-americana também bancou uma mudança profunda no portfólio que agora se mostrou eficaz. É verdade que a Ford também fez algo semelhante, mas o novo Ka ainda não compensou a perda do barato e conhecido Fiesta produzido na Bahia. Com isso, a Ford despencou quase 40% nas vendas este ano.

Tombo de quase 100 mil carros

Em números absolutos, no entanto, ninguém perdeu mais do que a Fiat. A outrora líder do mercado ainda é a segunda marca mais vendida do país, mas fechou os primeiros seis meses do ano emplacando apenas 144 mil carros contra 237 mil no primeiro semestre de 2015. São quase 93 mil veículos a menos ou como perder uma Hyundai inteira (5ª colocada do mercado com 95 mil emplacamentos).

Hoje a Fiat resiste com somente 15% de participação nas vendas, muito distante dos 22% que possuía em 2011 quando era líder absoluta. E isso porque teve um produto novo que trouxe um público que não estava com ela até hoje, a picape Toro.
Sua rival histórica, a Volkswagen, também não tem o que comemorar: deixou de vender 70 mil carros em comparação à 2015 e segue num 3º lugar que anda próximo do 4º colocado como nunca ocorreu antes.

Raio-X da fábrica
Autoo

Porto seguro

É verdade que neste ano quem perde pouco sai no lucro. A Renault, por exemplo, teve uma queda de quase 22%, mas aumentou sua participação no mercado para 7,3% assim como a irmã Nissan, que pulou de 2,4% para 2,6%. Mas há quem realmente não percebeu a crise como a Jeep, que compensou em parte as perdas da FCA (holding que a controla) na Fiat. Graças ao Renegade, a marca criadora do jipe vendeu 235% a mais que em 2015.

Quem sofre menos com a crise são as marcas que se diferenciaram por passar a imagem de ter produtos confiáveis como é o caso das japonesas Honda e Toyota e coreana Hyundai. A primeira até teve uma perda significativa, mais porque seu principal produto, o Civic, está no fim da vida, algo que deve mudar com a nova geração prestes a chegar. A Hyundai teve uma queda de 4,5% e mesmo assim é a 4ª marca mais vendida do país, posto ocupado por muitos anos pela Ford.

Raio-X da fábrica
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Asiáticos em alta

Já a Toyota está praticamente no mesmo nível de 2015 e sem ter um produto inédito na linha. A montadora japonesa, famosa pela confiança, tem conseguido o feito de vender o sedã Corolla como nunca e de fazer o outrora apagado Etios emplacar mais que carros mais novos – sem falar, é claro, na nova geração da picape Hilux, agora líder do segmento.

Não é à toa que a divisão de forças tenha mudado. Se as tradicionais caíram de 58% para 55% de participação de 2015 para cá, as japonesas e coreanas saltaram de 26% para 30% em 2016. Lá no fundo do pelotão, as chinesas quase sumiram do mercado com apenas meio por cento de participação enquanto as marcas ‘premium’ têm crescido de forma consistente e já detêm 3% das vendas.

Em outras palavras, a crise tem sido cruel com todos, mas certamente muito mais dura para as quatro grandes, hoje não tão ‘grandes’ assim.

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

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