Brasil dá adeus aos carros de duas portas

Populares no país, veículos familiares com apenas portas dianteiras perderam força após abertura das importações e avanço no design dos automóveis
Gol 2 portas

Gol 2 portas | Imagem: Divulgação

Ao divulgar o novo up! 2018, que será lançado nas próximas semanas, a Volkswagen deixou nas entrelinhas uma informação, a ausência das versões de duas portas do hatch de entrada. Questionada se elas serão lançadas, a marca não disse nem sim nem não, apenas que por ora o modelo segue apenas com quatro portas.

O desinteresse pela versão com apenas portas dianteiras tem sido um longo processo de mudança nas preferências do consumidor que, por motivos diversos, resistia a ideia de ter um veículo de quatro portas.

Parte disso foi culpa do design. Perto de um Passat ‘cupê’ a versão de 4 portas parecia um carro do ‘vovô’. Isso sem falar no estigma de veículo de taxista que os poucos carros com quatro portas carregavam consigo. De fato, não faltou vontade nas montadoras de oferecer a opção mais ‘acessível’ – até a Brasilia teve a sua -, mas o preconceito geralmente falou mais alto e dá-lhe perua com duas em vez de quatro portas, justo elas nascidas para levar a família...

Numa entrevista em 2002, o argentino Walter Wieland, ex-presidente da General Motors, me revelou o que mais lhe causou estranheza quando chegou ao Brasil para assumir a direção da montadora: “os táxis com duas portas”, respondeu na época. Ele até ficou admirado com o mecanismo improvisado pelo taxista para ajudar o passageiro a embarcar, uma extensão que puxava a alavanca na outra lateral e que permitia deitar o banco dianteiro.

O que Wieland percebeu naquela época demorou a ser notado pelo brasileiro, que só começou a ver beleza e sentido nos hatches, sedãs e peruas com portas traseiras após a abertura das importações, em 1991.

O argumento das duas portas, no entanto, se sustentou até bem pouco tempo atrás. Mesmo bem desenhadas (ou seja, sem preconceitos), as versões de quatro portas pesavam no bolso do consumidor e se não eram realmente necessárias (solteiros e casais sem filhos, por exemplo) valia a pena economizar um bom dinheiro nelas – ademais sempre havia o argumento do vendedor de que as portas maiores facilitavam o acesso.

Adeus aos populares

Mas veio o Inovar-Auto, a crise econômica e o quase fim do mercado de populares. Sem dinheiro nem condições facilitadas de parcelamento, o consumidor desistiu de comprar carros básicos, apelando para o enorme estoque de seminovos que cresceu com o incentivo à compra do zero km.

De forma quase que ensaiada, uma série de carros com versões de duas portas deram adeus ao mercado. O velho Ka (que só existia assim), o Mille, o Gol G4, o Clio e outros há mais tempo também.

Até bem pouco atrás, ainda estavam no mercado o Palio Fire (recentemente aposentado pelo Mobi, que mesmo pequeno dispensou até aqui essa opção), assim como o Fox (nascido com portas dianteiras apenas) e o Uno, que migraram para um patamar superior e deixaram as duas portas para trás.
Com isso, o Brasil se alinhará com o restante do mundo, que reserva as portas dianteiras para veículos como cupês, conversíveis, picapes e outros modelos mais exclusivos onde elas fazem sentido.

Caso o up! 2018 realmente não reedite a versão de duas portas restará apenas o Gol no mercado, R$ 2 mil mais barata que a de quatro portas. Uma ironia, afinal o táxi de duas portas que o ex-presidente da GM tomou quando saiu do aeroporto há duas décadas era um Gol da primeira geração.

Gol 2 portas

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