Com pandemia e dólar caro, mercado de carros importados no Brasil teme ''desestruturação''

Empresas do setor pedem medidas do governo para conseguir vencer esse período
Por utilizar componentes importados, preço dos carros nacionais é impactado por altas no dólar

Por utilizar componentes importados, preço dos carros nacionais é impactado por altas no dólar | Imagem: Reprodução internet

Enquanto as fabricantes instaladas há décadas no Brasil não escondem o forte abalo que a pandemia do novo coronavírus causou em suas operações, os importadores temem por uma profunda “desestruturação”, nas palavras de empresários do setor, da atividade em nosso país. Executivos ouvidos nesta semana pelo Autoo deixam claro que o clima é de profundo desânimo e preocupação envolvendo empresas da área. 

Isso ocorre em grande parte pela árdua tarefa dessas companhias em ter que lidar não só com as restrições impostas pelo isolamento social, o que acarretou no fechamento de diversas concessionárias, como também operar em um cenário de forte desvalorização do real frente ao dólar. Apesar do alívio nos últimos dias, a cotação da moeda norte-americana chegou perto de R$ 6,00 em algumas ocasiões.

Em uma live promovida pelo Automotive Business, o presidente da Abeifa (Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores), João Henrique Oliveira, adiantou que a perspectiva é de uma redução da ordem de 30% a 40% nas vendas do setor neste ano. De acordo com Oliveira, o dólar somava uma valorização de 37% frente ao real até o mês passado.

Em abril, as marcas que integram a associação somaram apenas 750 unidades vendidas, uma queda de 64,1% em relação a março, quando foram emplacadas 2.090 unidades. Hoje em dia a Abeifa reúne empresas como Volvo, Kia, JAC, Porsche, BMW, CAOA Chery, entre outras. Comparada com abril de 2019, quando foram comercializadas 2.950 unidades, a retração no mês passado foi de 74,6%. Com esses resultados, o primeiro quadrimestre do ano fechou com queda de 24,2%: 7.915 unidades contra 10.446 emplacamentos de janeiro a abril de 2019.

Temendo uma “paralisação total de suas atividades de comercialização de veículos novos e usados, de autopeças e também de prestação de serviços de pós-vendas nos próximos meses”, a Abeifa encaminhou ao Governo Federal algumas medidas emergenciais para que o setor de veículos importados no Brasil consiga ultrapassar o período mais agudo da pandemia.

Entre as principais medidas que podem favorecer a procura do público por automóveis estrangeiros está a redução da alíquota do imposto de importação, atualmente em 35%, para 20%. A Abeifa também pede um alinhamento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) que incide sobre os veículos importados. Observando o princípio da isonomia, as associadas da Abeifa sugerem que alíquotas praticadas hoje aos veículos importados sejam alinhadas com o que é cobrado em relação às fabricantes instaladas no Brasil. Segundo Oliveira explicou durante a live, a cotação muito alta do dólar já garante a competitividade dos carros nacionais e os modelos importados tornam-se naturalmente mais caros, o que abre espaço para que a administração pública abra mão de políticas de incentivo aos automóveis montados localmente. 

A Abeifa também solicitou, “de forma rápida e acessível”, uma linha de crédito para o capital de giro, junto ao BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, das empresas importadoras, seus fornecedores de autopeças e suas redes de concessionárias e a suspensão, por no mínimo 120 dias, dos prazos de pagamentos de todos os tributos federais administrados pela Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil. 

O setor de veículos importados geralmente é um dos que mais sofre nas crises econômicas, porém os esforços para mantê-lo vivo são necessários uma vez que ele é uma importante fonte de emprego e renda. Hoje em dia, por exemplo, as 15 marcas associadas da Abeifa englobam uma rede de concessionárias com 450 pontos de atendimento em todo o país e são responsáveis por 17,5 mil postos de trabalho. 

“Trata-se de um setor responsável pela complementariedade de produtos, pelo balizamento de preços de veículos automotores em relação aos demais mercados internacionais e por trazer ao país as principais tecnologias veiculares. Por esse princípio, o setor não pode desaparecer. Precisamos dessas medidas emergenciais”, revelou o presidente da Abeifa em um comunicado recente da associação.

Por fim, até o reinício das atividades econômicas de forma plena, Oliveira pondera que podemos esperar no mínimo por uma re-estruturação mais profunda das marcas que atuam no setor de carros importados, contemplando em especial a redução de custos e até mesmo uma adequação das redes de concessionárias de cada uma delas. Por se tratar de um vínculo pensado para o longo prazo, Oliveira acredita que marcas que apostaram em produção local, como a BMW e a Land Rover, devem se esforçar para garantir a viabilidade de suas fábricas no país. 

Volvo XC40 2019
Volvo é uma das marcas que integram a Abeifa
Imagem: Divulgação
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