Covid-19: recuperação do setor automotivo começa no segundo semestre, diz especialista

Vendas no Brasil devem cair por volta de 14% neste ano na comparação com 2019
Linha de montagem da FCA: produção mundial de veículos em queda

Linha de montagem da FCA: produção mundial de veículos em queda | Imagem: FCA/Leo Lara

No momento em chegamos nas semanas cruciais do avanço do novo coronavírus no Brasil, é interessante ouvirmos o que alguns dos principais especialistas do setor automotivo tem a dizer sobre o período e as suas consequências para um dos ramos industriais mais relevantes do país.

Participando de uma live produzida pelo Automotive Business (confira o vídeo na íntegra logo abaixo) o sócio da Bright Consulting, Paulo Cardamone, apresentou algumas perspectivas para o mercado automotivo brasileiro em meio à pandemia de Covid-19. A empresa é especializada no setor e está avaliando constantemente os cenários para o segmento na medida em que novas decisões são tomadas por fabricantes e governo.

De acordo com Cardamone, a nova perspectiva é que as vendas de carros e comerciais leves neste ano sofram uma retração da ordem de 14%, voltando ao patarmar da ordem de 2,3 milhões de unidades. Em 2019, o país somou exatos 2.658.923 emplacamentos de acordo com dados da Fenabrave. A produção local, por sua vez, deve cair em torno de 15%, gravitando na faixa de 2,340 milhões de carros e comerciais leves deixando as linhas de montagem neste ano.

“Com todas as medidas necessárias para o combate ao vírus, vamos perder algo em torno de 30 dias úteis de produção e vendas. Isso é irrecuperável”, sentencia Cardamone. Segundo o especialista, o setor de aftermarket (peças de reposição e serviços de reparo), ao que tudo indica, até o momento parece ter sofrido menos os impactos da crise uma vez que muitos proprietários de veículos deverão cuidar mais de seus veículos e repará-los ao invés de adquirir outro automóvel dentro de uma época de incertezas. Cardamone também adianta que, no longo prazo, a crise gerada pelo novo coronavírus na produção e venda de automóveis neste ano vai se converter em uma perda de 600 a 700 mil emplacamentos se levarmos em conta o horizonte até 2025.

Uma perspectiva mais animadora colocada por Cardamone é que “dependendo de como sair da crise, o Brasil pode se recuperar”. “Para isso, é importante uma retomada nas atividades no nível pré-crise. Talvez o período de quarentena tenha que seguir durante abril e, quem sabe, até as duas primeiras semanas de maio. Claro que a volta às atividades será gradual, ninguém sairá comprando carro assim que a quarentena acabar. Por isso, a recuperação começa mesmo no segundo semestre. O Brasil está posicionado para a recuperação e as vendas de automóveis podem apresentar uma melhora de 10% a 11% em 2021”, analisa o especialista.

Reflexos para o futuro

Cardamone também foi questionado por participantes da live organizada pelo Automotive Business sobre as perspectivas e lições que a crise causada pela pandemia global pode trazer para a indústria automotiva instalada no país.

O especialista destaca como pontos relevantes a maior digitalização dos serviços prestados pelas concessionárias para o atendimento de seus clientes. Além disso, alguns reflexos também podem chegar ao Rota 2030, atual regime automotivo brasileiro. O sócio da Bright Consulting pontua que as fabricantes podem pleitear uma revisão junto aos órgãos governamentais dos prazos para o cumprimento de metas de emissões e da inclusão de novos equipamentos de segurança nos automóveis produzidos aqui, tudo isso em razão dos reflexos causados no caixa das empresas neste momento e o alto custo que alguns dos objetivos propostos pelo Rota 2030 acarretam.

“As novas normas de emissões, como a L7 do Proconve, prevista para 2022, não traz um impacto financeiro tão alto, porém a L8, esperada para 2025, essa sim já demandaria um investimento bem maior”, explica Cardamone.

Por fim, o representante da Bright chama a atenção para efeitos diretos sobre a adoção de carros elétricos no país. “A meta do governo nos próximos meses será focar em questões de saúde sobretudo e também na recuperação da economia. Logo, medidas de desenvolvimento da infraestrutura para carregamento de carros elétricos não devem ser priorizadas tão cedo”.

“Outro ponto diz respeito a uma certa perda de poder na tomada de decisões por parte da subsidiárias locais das montadoras. Já começou um movimento de redução dos times locais de engenharia, por exemplo. Se as vendas caírem muito, um volume de produção muito baixo pode inviabilizar algumas plantas locais. Hoje no Brasil já temos uma taxa de ociosidade muito alta para algumas fábricas. Mesmo assim, se o país se recuperar, talvez a gente consiga vislumbrar um mercado de 5 milhões de carros novos, como já foi projetado há alguns anos, acontecendo por volta do fim desta década”, finaliza Cardamone.

 
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