Lá se vão 15 anos desde que o Cayenne surgiu causando revolta e indignação nos fãs da marca Porsche. Lembro da sensação de estranheza que o utilitário esportivo causou no Salão de Paris de 2002: era como se um 911 tivesse “engolido” um jipe.

Na época, a onda de SUVs estava apenas começando a se espalhar por alguns segmentos e parecia que seria algo restrito e passageiro afinal quem imaginaria que existiriam clientes para um Porsche tão grande e desengonçado. A BMW e a Mercedes já colhiam bons resultados com o X5 e Classe M e nos Estados Unidos as marcas exploraram essa possibilidade há mais tempo.

Nem é preciso dizer que as previsões mais aterrorizantes passaram longe da realidade. Agora, logo após conhecermos finalmente o Urus, o primeiro utilitário esportivo da Lamborghini, resta a pergunta fatal: quando a Ferrari terá um modelo para chamar de SUV?

Pelo que revelou este ano Sergio Marcchionne, o todo poderoso chefão da FCA, isso não demorará muito para acontecer e já é tido como certo. Isso mesmo, até a Ferrari, marca mais adorada do planeta, vai se render aos encantos financeiros dos utilitários esportivos (a margem de lucro deles é incomparável).

Claro que esse futuro modelo não se parecerá nada com um jipão e sim com um esportivo com imensas rodas e para-lamas que saltam aos olhos. Vai andar tanto quanto uma 488 (ou quase), deve ter propulsão híbrida para não virar um buraco negro de combustível e só não venderá muito porque a Ferrari limitará sua produção para manter o ar de exclusividade.

FUV

Por esse provável pacote não é à toa que Marcchionne tenha chamado o veículo de “FUV” durante uma entrevista em outubro na Bolsa de Valores de Nova York. O que quer dizer? Ferrari Utility Vehicle , afinal para quê o “S” de “Sport” numa marca conhecida justamente por isso.

O executivo revelou quais serão os passos até vermos uma Ferrari utilitária: 30 meses para estudar, desenvolver e produzir o modelo. Ou seja, praticamente o último dos SUVs deve aparecer nas ruas na virada da década.

Sim, ainda existirão alguns bastiões de resistência – acredita-se. A McLaren, rival eterna na Fórmula 1, garantiu em entrevista para um site australiano que não terá um SUV até 2022. Depois disso, ninguém “põe a mão no fogo”.

Todo esse pavor dos puristas tem razão de ser, afinal? Em termos. A indústria e nós jornalistas inclusive insistimos muitas vezes em associar esses modelos altos e com cara de mau a veículos off-road quando não foram projetados para isso em sua maioria.

Vive-se uma fase um tanto hipócrita a respeito desse olhar “aventureiro”. Sim, os SUVs inspiram algo mais que um clássico sedã ou um “juvenil” hatchback, mas é apenas isso, um argumento emocional.

O que mudou efetivamente no mercado mundial é que o público tem buscado veículos com posição mais alta de dirigir e que ainda ofereçam uma aparência jovial, algo que as minivans (também altas), não conseguiram.

É um apelo justificado diante das ruas um tanto selvagens em que vivemos hoje e até o argumento mais contrário a eles, o consumo de combustível e a emissão de poluentes, já anda menos forte com novas gerações mais leves e com motores mais eficientes.

Vale lembrar que antes de vermos os carros perderem altura após a Segunda Guerra Mundial, os veículos mais vendidos eram tão altos como alguns SUVs e com zero preocupação com aerodinâmica. As ruas também estavam bem aquém de algumas rodovias “classe zero” que rodamos atualmente. De certa forma, é como se tivéssemos voltado para as origens do automóvel. Para quem ainda não se convenceu, resta acender uma vela pela Rolls-Royce.

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO, é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

Ricardo Meier | http://www.jcceditorial.com.br/