Por que os carros argentinos estão sumindo do Brasil

Situação das fábricas no país vizinho só não é pior por conta da exportação das picapes médias que hoje respondem por metade da produção
Fiat Cronos: carros produzidos na Argentina perderam espaço no Brasil

Fiat Cronos: carros produzidos na Argentina perderam espaço no Brasil | Imagem: Divulgação

Houve uma época em que comprar um veículo novo fabricado na Argentina era algo comum no Brasil e muitas vezes o próprio cliente nem desconfiava disso. Marcas como a Fiat ou a Honda produziam os mesmos modelos nos dois países que acabavam abastecendo suas redes de concessionárias sem que isso fosse notado pelo consumidor.

Mas de um tempo para cá uma coincidência infeliz tem feito com os que veículos produzidos em nosso vizinho desapareçam do mercado brasileiro. A situação só não é pior porque as picapes médias têm salvado a indústria automobilística argentina. Em conjunto com alguns comerciais leves, esses veículos respondem por 65% da produção local e 70% da exportação.

Como não poderia ser diferente, o Brasil é o principal mercado importador dos veículos argentinos há décadas, fruto do Mercosul. Ou seja, esses veículos entram em nosso país como se fossem nacionais, sem pagar qualquer imposto de importação, e muitas vezes com boa parte dos componentes fabricado no Brasil.

Porém, nem mesmo essa sinergia de anos tem conseguido manter a competitividade da produção na Argentina, país assolado por uma crise financeira grave há algum tempo. O resultado desse quadro é que a indústria automobilística de nossos “Hermanos” despencou em uma década. Em 2008, ainda às vésperas da crise financeira mundial, a Argentina produziu 470 mil veículos de janeiro a setembro. Este ano, o volume é quase a metade: 241 mil unidades. A situação já não era boa no ano passado, quando foram produzidos 371 mil veículos nesse período, mas se agravou significativamente em 2019.

Mas, afinal, por que não temos tantos automóveis e utilitários argentinos no Brasil?

A crise argentina responde, é claro, pela principal razão. O custo de produzir no país se elevou e deixou a indústria sem condições de competir. O peso desvalorizou brutalmente, a inflação está na casa dos 55% e o PIB deve cair 3%.

Azar de quem achou que produzir na Argentina seria um bom negócio. Um dos atingidos por essa mudança de humor foi a parceria entre a Renault-Nissan e a Daimler, que ambicionava produzir lá três picapes baseadas na Frontier, mas só a Nissan continua viva por enquanto.

A Fiat foi outra montadora que acreditou na produção argentina para fabricar o Cronos, sedan compacto derivado do hatch Argo. O resultado tem sido decepcionante: o modelo, embora seja o segundo veículo argentino mais vendido no Brasil, amarga um vexaminoso 8º lugar no segmento, atrás até do Logan, um sedan que nunca foi um sucesso de vendas.

A derrocada dos carros argentinos também tem a ver com o perfil do mercado vizinho, mais voltado para modelos médios e não compactos como o Brasil. Por essa razão, boa parte das montadoras prefere produzir lá esse tipo de veículo. No entanto, algumas categorias estão bastante abaladas pela concorrência dos SUVs compactos, que brigam na mesma faixa de preço.

Os carros argentinos mais vendidos no Brasil em 2019

Três dos quatro veículos argentinos mais vendidos no Brasil são picapes médias

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Os hatches médios, por exemplo, estão praticamente mortos, como se sabe. E adivinhe quem era a meca deles na região? Sim, a Argentina, onde ainda existe o Peugeot 308 e o Chevrolet Cruze Sport6 – esse que era produzido aqui na geração anterior. Neste ano, a Ford deu adeus ao Focus e a Citroën já havia desistido de fazer lá o C4 hatch.

Mas também os sedans médios argentinos estão em má fase. O C4 Lounge nunca justificou o investimento, o Fluence só durou pouco tempo e mesmo o novo e moderno Cruze se esforça apenas para ser o terceiro colocado na categoria, atrás dos japoneses feitos no Brasil Corolla e Civic.

Por falar em Honda, a montadora japonesa recentemente decidiu parar de fabricar automóveis na Argentina, onde tinha uma pequena linha de montagem do HR-V, único SUV compacto que era produzido em nosso vizinho.

Aliás, a situação econômica tem afetado até a estratégias de algumas marcas que planejam produzir SUS em solo argentino. A Volkswagen, por exemplo, já confirmou que sua fábrica em Pacheco fará o Tarek, um utilitário esportivo entre o T-Cross e o Tiguan, mas o lançamento é esperado apenas para 2021 se não for protelado diante de tantas incertezas no país.

A salvação

Embora também afetadas pela crise, as picapes médias são uma exceção. Dos seis modelos vendidos no Brasil nada menos que quatro são produzidos na Argentina, incluindo a líder Hilux. A Toyota, aliás, tem conseguido até ampliar suas vendas que contam com a ajuda do SW4, o caro e pesadão SUV da Hilux. A Amarok e a Ranger, embora atrás da brasileira S10, também mantêm um bom desempenho, sendo o 4º e o 3º entre os veículos argentinos mais vendidos em nosso país.

Mas é pouco para uma indústria tradicional e que conta hoje com os principais players do mercado. No entanto, trata-se de um parque industrial extremamente dependente do Brasil, cuja economia, como sabemos, também não anda bem, mas que é muito maior que nosso vizinho.

Resta saber se os novos modelos planejados para serem produzidos na Argentina chegarão em condições competitivas caso a economia do país se recupere. A GM é uma das montadoras que deve lançar um novo produto nos próximos anos assim como a PSA confirmou a produção da segunda geração do hatch compacto 208 na unidade de El Palomar.

Certamente será difícil repetir os tempos em que circulavam no Brasil modelos argentinos como o Clio, Mégane, 307, Focus, Kangoo, Agile, Tracker (Grand Vitara), C4 Pallas e SpaceFox, para citar alguns, mas que a participação do vizinho aqui está abaixo do normal, isso não há dúvida.

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Imagem: Divulgação

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