Quando um novo modelo é lançado, sempre fica a dúvida se ele irá se dar bem ou será apenas mais um mico encalhado nas lojas. Quando inaugura um segmento então, isso piora. Foi essa a minha dúvida quando olhei para a Renault Duster Oroch pela primeira vez durante o Salão de Buenos Aires, onde ocorreu sua estreia em versão final.

A proposta é boa. Se você, como eu, gosta ou precisa da facilidade de uma caçamba e não abre mão do banco traseiro para levar passageiros, já pode escolher algo além entre o aperto das pequenas, como a Volkswagen Saveiro ou Fiat Strada em suas configurações cabine dupla, e o gigantismo de Chevrolet S10 e Ford Ranger. A Oroch se encaixou perfeitamente sozinha neste vão – enquanto a Fiat não lançar a Toro depois da bagunça do carnaval de 2016.

Moço, anda bem?

A picape que você confere na galeria é a versão topo da Oroch, a Dynamique 2.0. Com o pacote Outsider, que coloca os apliques nos para-lamas e o quebra-mato com luzes de longa distância por mais R$ 2.990, seu preço nas lojas é de R$ 70.790. Ela chega bem equipada, com direção hidráulica, ar-condicionado, conjunto elétrico, bancos de couro, computador de bordo e a central multimídia MediaNav Evolution 2.0. Embaixo do capô, o motor de dois litros flex com 143/148 cv e o câmbio manual de 6 marchas com longos mas bons engates – por incrível que pareça, melhores até que do esportivo Sandero RS, que usa o mesmo conjunto mas recalibrado para uma pegada mais emocional.

A Oroch é muito mais do que um Duster com a traseira recortada. São 36 cm a mais no comprimento, além de um ganho de 15 cm no entre-eixos para poder ter uma caçamba de verdade, capaz de transportar 650 kg ou oferecer 683 litros de capacidade volumétrica. Isso resultou em 70 kg a mais no peso em relação ao SUV, que precisavam ser compensados de alguma forma na hora de andar. Isso veio no câmbio, com relações mais curtas, que fazem a Oroch ter bom desempenho na cidade e na estrada quando vazia, e quando carregada, seja com passageiros ou carga, anda suficientemente bem. Não será rápida, mas você não espera isso de uma picape, certo?

Como o Duster, a Oroch tem botão ECO no painel, o que muda o comportamento do acelerador e motor para economizar combustível. Mesmo assim, ela gosta de um etanol, principalmente na cidade: cerca de 6,5 km/l e, na estrada, 10 km/l. Algo que a Renault fez na Oroch que poderia adotar no Duster é a suspensão independente na traseira para todas as versões, algo que o SUV oferece apenas na topo com tração 4x4. Lógico, não faz curvas como um carro com centro de gravidade baixo, mas as respostas são boas e neutras em velocidades mais altas e, quando provocada, tem uma tendência a sair mais de frente que de traseira, mesmo descarregada. Além do mais, o conforto e a robustez do Duster está na Oroch.

 
 
Renault Duster Oroch Renault Duster Oroch
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Cabe o que aí, tio?

Durante a semana que passei com a Oroch, fui abordado diversas vezes, desde o frentista do posto até uma senhora que colocou o Duster 2013 dela à venda para comprar a Oroch. Eles olhavam desconfiados em um primeiro momento, mas logo já ficaram à vontade para perguntar se valia a pena ter aquela picape. Vamos começar por trás. A caçamba não é grande, mas a possibilidade de levar coisas sem sujar nada dentro do carro é maravilhosa. Para mim, foi útil para levar um capô e, por incrível que pareça, um motor. Uma bicicleta grande coube perfeitamente sem a roda dianteira, que foi retirada facilmente graças a um sistema barato que você coloca em qualquer bike.

Na hora de ir no mercado, o ideal é colocar as compras no banco traseiro ou providenciar caixas para não encontrar tudo espalhado e ter que fazer malabarismo para buscar aquela caixa de cereais lá no fundo da caçamba. Além disso, a tampa traseira é pesada e poderia ter um amortecedor, como a Saveiro, para facilitar principalmente o uso por mulheres.

Nos bancos dianteiros, o mesmo conforto da Duster, com posição alta e bom espaço. Atrás, onde você poderia esperar mais, já que a Oroch cresceu no entre-eixos em relação ao Duster, aconteceu o contrário. O espaço para as pernas é menor em relação ao SUV, mas ainda bom, porém o encosto do banco mais reto cansa os passageiros em uma viagem longa. Ao menos, o cinto de segurança do meio é de três pontos, algo que também poderia ir para o Duster.

O acabamento, mesmo usando plástico duro por todo lado, se encaixou bem na proposta de uma picape mais rústica e trabalhadora, como a Oroch. Se sujar é só passar o pano que está novo!

Onde moram os pecados?

A Oroch poderia ter melhorado alguns outros defeitos do Duster. O painel, por exemplo, continua com os erros de ergonomia, como a posição da central multimídia muito baixa, os botões do ar-condicionado quase escondidos, a falta de amortecimento para a regulagem de altura da coluna de direção e o tímido ajuste dos retrovisores, instalado logo abaixo da alavanca do freio de mão. Nas portas, ao menos há pouco de tecido, mas os comandos dos vidros elétricos ficam longe da mão.

O Sandero RS trouxe o controle de tração e estabilidade e o auxiliar de partida em rampa para esta plataforma. Oroch, custava também pegar lá na estante? E o ar-condicionado automático a colocaria em uma posição melhor na hora de decidir a compra. Pequenos deslizes!

Vale os setentão?

Para mim, valem! Mesmo com os deslizes, a Oroch se saiu muito bem durante o uso no dia a dia. Ajudou no meu hobby, com o motor e o capô do meu carro, levou a família para jantar e agradou a namorada no passeio noturno. Também conseguiu me divertir com a sua agilidade na cidade e bom desempenho na estrada.

Meu maior conselho é que você se aperte um pouco mais e leve uma 2.0 no lugar de uma 1.6, principalmente pela “pouca” diferença de valor. Se a Renault tivesse matado os defeitos de Duster da Oroch, seria quase perfeita! Se ela será um sucesso? Eu, depois de tanta curiosidade, aposto que sim! Se olhar o preço de Strada e S10, vale mais ainda.  

Redação |