Um choque de realidade. É a sensação que se tem ao ver o que as principais montadoras mostram no Salão de Paris, o maior evento do gênero em 2010, que abre neste sábado, 2, na capital francesa.

Marcadas pela recente crise financeira e pela constatação que o petróleo deixou de ser o combustível ideal tanto pelo lado econômico quanto ambiental, os fabricantes de automóveis estão fazendo um exercício enorme de imaginação para entender como será o futuro da mobilidade e idéias não faltam.

Há montadora que combina diesel ou gasolina com motores elétricos, outras que aumentaram a eficiência de seus motores, quem aposta apenas na eletricidade desde já e soluções curiosas como sccoters e quadriciclos elétricos e até bicicletas.

Para o consumidor europeu, o aspecto ambiental está muito mais claro que, por exemplo, para os brasileiros. Até mesmo as marcas premium como Mercedes-Benz, Audi e BMW exibem até com certo exagero versões menos poluentes de seus sofisticados modelos.

Aposta de risco

Nessa seara de propostas, chama a atenção o grupo Renault-Nissan. Comandado pelo brasileiro Carlos Ghosn, o fabricante resolveu arriscar em carros elétricos puros, mesmo que hoje não exista infraestrutura para reabastecer seus modelos como o sedã Fluence e a multivan Kangoo do projeto Z.E – Zero emissions. Os dois começarão a ser vendidos no início de 2011 na França, Espanha e Israel. Isso porque apenas estes três países concederam incentivos para a compra deles – Fluence, por exemplo, custa 21.300 euros – e investem numa rede de recarga das baterias.

Eis aí o grande problema da tecnologia. O tempo de recarga versus autonomia ainda é uma equação complicada. Os elétricos da Renault, por exemplo, oferecem duas opções: recarga de 10 minutos quando 400 V ou recarga de seis a oito horas numa tomada 220 V. A primeira proporciona 50 km de alcance e a segunda, 150 km. O detalhe é que nem sempre você se planeja para uma viagem a ponto de lembrar de deixar o carro carregando à noite. Aí entra outra solução, inventada pela empresa Better Place que substitui a bateria – uma peça volumosa que pesa mais de 300 kg – em três minutos.

Como se vê, enquanto as baterias não tiverem capacidade ampliada, o cliente desses carros terá de planejar seu dia a dia. Por isso, a montadora francesa inclui no pacote de série um GPS com uma ferramenta que calcula o alcance do veículo e que mostra pontos de recarga pelo caminho.

Sua maior rival, a PSA, que reúne Peugeot e Citroën, preferiu ser mais comedida. Em vez de desenvolver o próprio sistema elétrico, a empresa venderá o modelo i-MieV, da Mitsubishi, com visual prório. Além disso, as duas marcas investem no híbrido que combina eletricidade com um motor a diesel, populares na Europa.
Tecnologia semelhante, mas com gasolina em vez de diesel, é adotada por outras marcas como a Honda, Toyota, BMW e Porsche, entre outras. No entanto, uma solução mais simples e barata é seguida por Mercedes-Benz, Volkswagen e Hyundai, os modelos eficientes. Batizados como Blue Efficiency, Blue Motion e Blue Drive, o objetivo é aprimorar o funcionamento de motores, aerodinâmica e outras maneiras de economizar energia.

Transporte individual

Talvez a corrente mais racional de toda a indústria é a que defende os veículos urbanos de porte minúsculo, alguns deles individuais. Com menos espaço para trafegar e estacionar, parece sensato usar o mínimo possível de recursos para se locomover. Nesse sentido vemos modelos como o BB1, da Peugeot, e o Twizy, da Renault, ambos elétricos e que levam duas pessoas.

Já a Mini e a Smart, alçadas à condição de estrelas pela crise devido aos modelos de consumo frugal, decidiram inovar nas duas rodas. A primeira criou a Scooter E, com propulsão elétrica e visual retro e a segunda, outra scooter elétrica e uma curiosa proposta de bicicleta elétrica cujos pedais servem também para recargar uma pequena bateria que pode ser usada em algumas situações que alimenta funções como um GPS integrado.

Bolso vazio

Nem só de tecnologia e idéias mirabolantes vive o Salão de Paris. Com suas economias ainda cambaleando após o terremoto econômico de 2008, os europeus estão deixando de lado a pompa e, tal qual outras nações, optando por modelos de veículos mais modestos e integrados com o mundo.

Plataformas globais como as adotadas pelas coreanas Hyundai e Kia e pelas japonesas Toyota e Honda, viraram a bola da vez para montadoras como a Ford, Peugeot, Nissan, Volkswagen e GM. Aliás, essa última tem investido em duas frentes na Europa. A primeira é reforçando a combalida Opel com modelos mais avançados, mas não tão caros, e aumentando a oferta de carros da Chevrolet, a verdadeira marca global que aqui opta por veículos mais baratos como o novo Orlando, o Cruze hatch e o Captiva renovado.

Claro que há espaço para a ostentação, basta ver o que Lamborghini, Bugatti, Ferrari e Bentley mostram em seus espaços, mas, nesse caso, não são algumas centenas de esportivos que destruirão a camada de ozônio. Será?

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO, é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

Ricardo Meier | http://www.jcceditorial.com.br/