Não chega a ser o início de uma nova era entre as fontes energéticas, como foi o Pro-Álcool na década de 70. Mas a Ford deu início hoje a um movimento que tende a se intensificar – claro, com relativo atraso em comparação à Europa, EUA e Japão. A marca norte-americana começa a vender no Brasil o primeiro híbrido "de verdade": por R$ 133.900, o Fusion Hybrid chega com a missão de abrir a mente dos brasileiros para os carros que combinam propulsão elétrica e a combustão.  

Micro, Mild e Full

Híbrido de verdade porque smart fortwo mhd e S400 Hybrid (comercializados pela Mercedes-Benz) não funcionam somente no modo elétrico – o compacto sequer tem um motor movido a eletricidade. Ambos são considerados micro e médio híbridos, respectivamente: o primeiro por contar apenas com o sistema start-stop (que desliga e religa o motor conforme a demanda), e o segundo por acionar seu propulsor elétrico somente para jorrar mais potência quando se exige desempenho do bloco a combustão. O sedã que chega agora ao mercado é do tipo completo, com os dois motores trabalhando para movimentar o carro, sendo que sua construção é dividida; ou seja, eles podem operar juntos ou de forma independente. 

Formando esta dupla está um motor Duratec 2.5 16V de 158 cv configurado no ciclo Atkinson, e não Otto – a diferença, basicamente, está no tempo maior de abertura das válvulas de admissão – e um propulsor elétrico de 107 cv. A combinação dos dois gera 193 cv, enquanto o câmbio convencional de seis marchas foi substituído por um do tipo CVT. A bateria de alta tensão que alimenta o motor elétrico tem 275 Volts, foi desenvolvida pela Sanyo e está instalada atrás do encosto do banco traseiro. Segundo a Ford, ela dura uma década e sua garantia vai até o oitavo ano.

Impressões

Dar a partida e não sentir que o carro está ligado não é exclusividade dos elétricos. No Fusion Hybrid essa sensação se repete – para quem ainda não está acostumado com o painel repleto de informações, um aperto no acelerador mostra que o veículo está ligado. O sedã se desloca da imobilidade com um vigoroso torque, devendo agradar os que não perdoam mau desempenho em troca de economia. O câmbio CVT, verdade seja dita, embora mais eficiente para esse propósito tira um pouco do prazer de guiar, uma característica inerente ao Fusion – e é desnecessário dizer que o conforto e a boa posição ao volante permanecem lá. Depois de um teste drive curto e travado dentro do trânsito complicadíssimo de São Paulo, saímos do carro tendo como sensação mais evidente que suavidade e silêncio são os grandes destaques deste híbrido.

Guiar o Fusion Hybrid chega a ser divertido. No painel, há informações sobre os níveis de combustível e energia, além de um raio-x do automóvel, que nos permite visualizar a organização das tarefas de cada um: quem está tracionando o carro e se os freios regenerativos mandam energia para a bateria. O mais interessante é a árvore que se forma no painel, indicando os níveis de economia alcançados pelo motorista – quanto mais folhas a tal árvore ganha, sinal de que estamos guiando de maneira mais ecológica. E nisso o condutor fica se policiando para sempre que possível aliviar o pé do acelerador para tentar ao máximo deixar o motor elétrico dominar tudo. Vale lembrar que acima dos 75 km/h esta unidade nunca funcionará sozinha.  

Equipamentos

O preço alto justifica-se, também, pela grande quantidade de equipamentos que o Hybrid traz. De série, há sete aibags, sensores crepuscular, de chuva e de estacionamento, teto solar, câmera de ré integrada à tela do sistema de entretenimento Sync, dispositivo que monitora pontos cegos nos retrovisores, banco do motorista com ajustes elétricos, bancos em couro, sistema MyKey (que opera em conjunto com o computador de bordo), ar-condicionado dual zone, entre outros itens. A linha 2011, em todos os modelos, ficou mais equipada.

Híbrido para quem?

A Ford afirma que o Fusion Hybrid faz 16,4 km/l na cidade e 18,4 km/l em ciclo rodoviário, números que caem para 15 e 19 km/l (na ordem) no caso do Ka, numa comparação feita por ela própria. Ou seja, para compensar a diferença de R$ 47.740 em relação ao Fusion 2.5 convencional equipado com teto solar (R$ 86.160), seu proprietário teria que praticamente casar com o carro.

A própria montadora admite que o Fusion Hybrid não é, hoje, destinado aos engajados nas causas ambientais, que em sua grande parte não tem R$ 133.900 para dar num carro. A novidade será para quem busca tecnologia, quem quer estar à frente e alinhado ao que se consome da Europa, EUA e Japão com mais freqüência. É esperado por todos, principalmente pelas fabricantes, que os híbridos tenham logo subsídios governamentais, para aí sim se tornarem uma alternativa mais viável.

Não importa, agora, quanto custa e quem vai comprar o Fusion Hybrid. A Ford sabe que venderá pouquíssimas unidades (a princípio talvez apenas para frotistas, governo e instituições diversas) e não está preocupada, já que não depende dele para pagar suas contas. O maior desafio do Fusion Hybrid neste momento é se apresentar aos brasileiros, plantando aos poucos a semente dos híbridos por aqui.

Rodrigo Mora

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