A Kia amadureceu. A montadora coreana, que vivia a euforia de, enfim, ter uma linha de veículos atraente e desejada, agora quer crescer focada em menos modelos e em conseguir atender a demanda de suas principais novidades – leia-se o Soul flex, o sedã Cerato, o compacto Picanto e, sobretudo, o novo crossover Sportage.
 
Desde a mudança visual introduzida pelo Soul, espécie de monovolume off-road, a Kia tem lançado novos modelos como uma metralhadora: Cerato, Sorento, Koup, Cadenza, Cerato hatch, Optima, Venga e o novo Picanto. Foram tantos modelos que a Kia brasileira, a cada encontro com a imprensa, anunciava datas e mais datas para a chegada desses modelos em território nacional.
 
Mas a realidade era outra: com nada menos que 156 mercados para abastecer, as três fábricas da empresa na Coreia do Sul tiveram que racionar a produção. Com isso, o novo Sportage, por exemplo, mostrado no Salão do Automóvel em outubro do ano passado, mal chegou às concessionárias e sumiu. Não havia como dar conta de tantos pedidos.
 
Apenas agora a Kia “relançou” o modelo com a promessa de entregar ao menos mil unidades por mês, “eventualmente até 1.800 carros”, disse Ary Jorge, diretor comercial da empresa.
 
Manicure
 
Outro veículo que está sendo retrabalhado é o próprio Soul. O modelo é o primeiro veículo coreano a ter um motor bicombustível e o resultado é que as vendas praticamente dobraram – além do motor flex, o carro ganhou um novo painel de instrumentos e maçanetas cujo funcionamento não provoca a quebra de unhas de mulheres: “uma demanda do nosso público feminino que tinha problemas com a maçaneta embutida da versão anterior”, explicou Jorge.
 
Na esteira do Soul, a Kia promete para setembro o novo Picanto, compacto conhecido hoje pelo pacote de equipamentos completo, mas que possui dimensões modestas para o segmento. A nova geração, mostrada no Salão de Genebra, é maior e mais moderna, graças aos traços infalíveis do designer alemão Peter Schreyer.
 
Mas a grande novidade do Picanto 2012 é o inédito motor 1.0 flex. Com 86 cv, o propulsor será o primeiro bloco três cilindros bicombustível à venda no Brasil – o padrão hoje são quatro cilindros. O próximo passo será o Sportage flex, com motor 2.0, que está sendo testado na Coreia do Sul.
 
Fábrica distante
 
Antes do Picanto  chegará ao mercado em maio o Koup, a versão cupê do Cerato, e em meados de outubro o sedã de luxo Optima, que concorrerá com o Ford Fusion pelo mercado acima do que hoje estão o Toyota Corolla e o Honda Civic. O Cerato hatch, dado como certo, está fora dos planos por enquanto. A Kia não explicou a razão, mas não é absurdo pensar que o hatch poderia atrapalhar as vendas do bem sucedido i30, da irmã Hyundai, que executivos da Kia apelidaram de “marca azul” – a rivalidade interna é tão grande que ninguém se atreve a pronunciar seu nome em público.
 
Com esses modelos, a Kia pretende terminar 2010 com 104 mil unidades vendidas, quase o dobro de 2010 (54 mil carros). O volume é considerado o mínimo para justificar uma fábrica no Brasil, mas a montadora desconversa: “na verdade, é preciso vender pelo menos 200 mil carros para valer a pena construir uma unidade no país”, disse ao AUTOO Philip Derderian, diretor de marketing e ex-presidente da Chrysler no Brasil. “Se hoje tivéssemos uma fábrica no Brasil não poderíamos vender 13 modelos diferentes e quase 40 versões de carros”, explica. “Seria necessário focar no mercado de entrada e brigar com as grandes marcas e isso não é o que nos interessa agora”, concluiu.

Thiago Vinholes

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