Carros com sabor tupiniquim

Conteúdo dos automóveis nacionais é influenciado por manias e costumes do público

O consumidor brasileiro é um dos mais exigentes | Imagem: AUTOO

Executivos da indústria automobilística costumam dizer que o consumidor brasileiro é dos mais exigentes do mundo, embora o nível tecnológico e a qualidade dos automóveis que a maioria tem acesso não sejam dos melhores. Ainda assim o público dá seus pitacos e não perdoa quando uma montadora erra algum detalhe que fere seu costume.

Essas interferências passam por detalhes no visual dos carros, como um parachoque pintado, e vão até componentes que nem são visíveis, como os estepes completos que os automóveis nacionais carregam escondidos no porta-malas ou abaixo do assoalho.

Acertar ou não a “mão da massa” é uma questão de proximidade com o consumidor, um processo que pode ser um tanto tortuoso para uma montadora. Geralmente acerta com maior frequência as fabricantes que estão instalados no Brasil há mais tempo. Há algumas semanas, na apresentação do 208 nacional, o presidente da PSA no Brasil, Carlos Gomes, fez questão de dizer que a versão brasileira exibia o escapamento, ao contrário da francesa, "porque as pesquisas que fizemos apontaram que aqui o cliente quer vê-lo exposto na traseira do carro", explicou.

Já quem chegou a pouco e veio mal assessorado acaba cometendo alguns deslizes e muitas vezes a solução do problema já surge na linha seguinte do produto. Ou não...

Veja a seguir alguns itens que mudaram para agradar o consumidor brasileiro.

Interior preto

Foi-se o tempo dos carros nacionais com acabamento interno em tons claros, como bege ou branco, ou tons mais fortes e chamativos, como vermelho ou azul. No atual cenário impera o preto com raríssimas exceções. Painel, bancos, parte interna das portas, assoalho, console, volante... Praticamente todos os componentes de cabines de automóveis nacionais vem no tom preto. A desculpa para isso ter virado padrão é a capacidade de peças dessa cor não apresentarem aspecto de encardido, o que consequentemente melhora o valor do veículo na revenda.

Escapamento aparente

O carro brasileiro precisa ter um escapamento aparente, seja ele de verdade ou não. Nunca reparou? Pois então comece a prestar mais atenção aos carros na rua. Os canos de escape são supervalorizados no Brasil com peças prolongadas, que acabam ficando mais expostas no traseira, ou então ao adotar uma solução à brasileira, com peças ou prolongamentos do parachoque que fingem ser um escape bacana – Fiat e Peugeot são “mestres” nesse quesito.

Vidros “um toque”

Uma moda recente no Brasil são os vidros elétricos “um toque” (há quem prefira dizer “one touch”) para todas as janelas e em todo e qualquer carro. Fora do País esse item é até comum, o que muda é a forma como ele é utilizado. Geralmente apenas a janela do motorista conta com esse recurso, por uma questão de segurança para não atrapalhar a condução. Há ainda veículo em que os vidros abaixam ou sobem com apenas um toque no botão, por isso a necessidade de um sistema anti-esmagamento para evitar acidentes.

Estepe externo

Carros normais que são adaptados ao estilo aventureiro – vide o CrossFox e Idea Adventure – tendem a aderir ao estepe instalado na parte traseira, como se fossem jipes. Esse tipo de configuração geralmente cria um elemento dificultador na operação de abrir e fechar o porta-malas. Ganha-se em estilo, mas perde-se em praticidade, sem falar no maior risco de ter o pneu sobressalente furtado.

Estepe completo

O brasileiro e suas manias com pneus... Na Europa e Estados Unidos hoje em dia já é comum os carros não terem mais o pneu sobressalente guardado no porta-malas para o caso de emergências. A solução encontrada para eliminar esse estorvo pesado e espaçoso no bagageiro são pequenos kits capazes de reparar o pneu e inflá-lo novamente. Diversos modelos à venda no Brasil já possuem esse recurso em suas versões oferecidas no exterior ou então contam com os chamados “pneus de emergência”, que são menores e mais leves. Já os carros nacionais e muitos modelos importados à venda no País trazem o pneu e roda reservas iguais ao que já vão instalados no veículo, um sinal de valorização.

Pisca branco

A parte amarela da lanterna reservada às luzes do pisca indicador de mudança de direção estão em extinção no mercado brasileiro. O gosto local até concorda com a luz amarela, mas o acabamento do bulbo destinado a essa função deve ser translúcido ou branco. A maioria dos automóveis nacionais está seguindo esse padrão e alguns modelos estrangeiros quando chegam ao Brasil passam por essa mudança. O novo Honda Civic é um exemplo recente.

Câmbio manual

“Prefiro carro manual pois é mais fácil de dirigir”. Essa afirmação sai com certa frequência da boca de motoristas que nunca provaram um automóvel com transmissão automática. Ao eliminar o pedal da embreagem e a necessidade de cambiar as marchas eliminam-se duas tarefas ao dirigir. E cansativas, diga-se. Logo, o veículo fica mais fácil e confortável de ser conduzido, especialmente em situações de trânsito urbano. O fator negativo, no entanto, é o preço elevado que esse tipo de componente acrescenta ao valor final do carro.

Termômetro do motor

Assim como o velocímetro e o conta-giros, o público brasileiro também está acostumado a ver um indicador de temperatura do motor no painel de carro. Em muitos países esse mostrador já foi eliminado devido ao avanço dos motores, que hoje em dia dificilmente “fervem” se estiverem com a manutenção em dia. Em vez do termômetro, esses carros contam apenas com alertas visuais no painel, que são acionados quando o motor esquenta além do limite.

Botão dos vidros elétricos nas portas

“Mania de francês”, os comandos do vidro elétrico fora das portas é considerado um pecado pelo consumidor brasileiro. Comuns em modelos atuais da Peugeot e Citroën, os botões na posição inadequada também já apareceram em carros da Renault e Volkswagen, que abriram os olhos e integraram os comandos ao acabamento da parte interna das portas. Quem não mudou é alvo fácil de críticas negativas.

Para-choques na cor do veículo

Atualmente são poucos os carros, mesmo os modelos de baixo custo, que saem de fábrica sem os para-choques pintados na mesma cor da carroceria. Esse acabamento até pouco tempo ainda era oferecido como item opcional e acrescentava cerca de R$ 500, quando não mais, ao valor final do veículo. Era isso ou então ter um carro bicolor. A tinta sobre o plástico da proteção também preserva o material, que exposto ao sol acaba desbotando.

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