O dia em que uma Tesla Cybertruck assassinou o jornalismo
Cobertura de acidente em São Paulo leva o sensacionalismo contra os elétricos às últimas consequências
Não tenho a menor dúvida de que a Cybertruck é um veículo no mínimo polêmico. Não bastando ser 100% elétrica, é fabricada pela Tesla – cujo CEO, Elon Musk, carrega ficha corrida de atitudes pelo menos questionáveis – e tem design, carroceria e porte bastante fora do comum. Por isso, basta sua citação para qualquer assunto se tornar chamativo.
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Mas nem isso justifica o que fez um dos maiores portais da internet brasileira na quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026. Em sua home, estampou a manchete “Motociclista morre após acidente com carro Tesla Cybertruck na zona sul de São Paulo”.
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SER CYBERTRUCK NÃO FEZ DIFERENÇA

Imagem: Reprodução/TV Globo
Claro que imbuído de curiosidade e expectativa de tratar-se algo envolvendo diretamente o modelo, e indiretamente o fato de ser veículo 100% elétrico, o incauto leitor clica na manchete e se depara com os fatos – explicados pela própria matéria sob o subtítulo “O que aconteceu”.
O que aconteceu foi que o motorista da Cybertruck, segundo o próprio texto, “cruzava a avenida no semáforo aberto quando o motociclista saiu em alta velocidade de túnel. O acidente aconteceu pouco antes da 1h de hoje, na saída do túnel Max Feffer, na Avenida Cidade Jardim”.
Ainda de acordo com a própria reportagem – que traz imagens do acidente registradas por câmera de segurança – o motorista ficou no local do acidente, prestou socorro à vítima, não tinha sinais de embriaguez (confirmado por teste de bafômetro) e ainda entregou à polícia as imagens do acidente registradas pela câmera de bordo da própria Cybertruck.
Não se trata aqui de julgar quem tem culpa no acidente; isso não cabe a mim nem a ninguém, mas sim somente às autoridades competentes (mesmo que a própria reportagem aponte que a picape cruzou a pista com o farol verde para si).
O que chama atenção é que a dinâmica do acidente teria sido exatamente a mesma fosse qualquer veículo a colidir com a moto – um Fusca, uma Scénic, um BMW ou qualquer outro modelo, visto que as imagens e a polícia também indiquem que não houve excesso de velocidade por parte do motorista da picape. Assim, o fato de ser uma Cybertruck, diante das circunstâncias, é o que menos importa.
É um fator absolutamente irrelevante para o acidente em si. Mas o portal em questão preferiu ignorar o bom jornalismo e mergulhou de cabeça no sensacionalismo. Mais uma vez, não se trata de defender ou acusar o motorista da picape, o piloto da moto, o modelo Cybertruck, a Tesla, o Elon Musk ou quem quer que seja; se trata de cobrar relato de fatos com coerência e clareza.
Não fosse a reportagem mais rasa que um pires, seria possível até questionar se os avançados sistemas de condução autônoma e de segurança ativa da Cybertruck estavam ligados ou desligados, ou se foram ineficientes e/ou inoperantes diante do acidente em questão, talvez por tratar-se de cruzamento em diagonal e não em sinal de ‘+’ como é tradicional; ou porque chovia na hora do acidente e isso afetou de alguma forma os sensores.
Talvez, quem sabe, isso pudesse até levar a uma investigação dentro da fábrica ou em órgãos independentes de segurança veicular em busca de aperfeiçoamento; mas nem isso o texto sequer sonhou mencionar.
O mais incrível é que o portal, mesmo sendo cria de um dos grandes ‘jornalões’ de São Paulo, e portanto (creio eu) submetido no mínimo a regras de boas práticas jornalísticas citadas em manual próprio, não se deu por satisfeito. Desferir golpe fatal no jornalismo sério não bastou; era preciso assassiná-lo a tiros.
Deixar claro que no fundo do poço ainda havia um porão. Ao rolar-se a tela, ainda na home do portal, logo abaixo surgia outra reportagem, com destaque ainda maior, dotada de foto de divulgação de uma Cybertruck, com a manchete “Como é o carro futurista da Tesla que atropelou e matou motociclista em SP”.
Por óbvio, mesmo que fosse o caso (e não parece ser), uma Cybertruck não atropelaria e mataria um motociclista em São Paulo sozinha; isso seria responsabilidade de seu motorista.
Por mais que tenha sistemas de direção avançados e até autônomos, como o Autopilot, não me consta que Cybertrucks (ou qualquer outro carro) saiam sozinhas de suas garagens em ação sanguinária à caça de motociclistas pela madrugada paulistana.
O que mais me choca é que essa segunda matéria (publicada apenas uma hora e meia após o primeiro texto sobre o acidente) está na editoria de Carros do portal. E na subeditoria Carros Elétricos.
E se fosse um carro a combustão?

O texto então apenas relata dados técnicos, de desempenho e de estilo genéricos da picape, tais como versões, potência, velocidade máxima e afins. Novamente, nenhuma associação direta dos sistemas de segurança e de condução autônoma do veículo com o acidente é analisada ou ao menos relatada.
É diferente, bem diferente, de quando se publica reportagem sobre um automóvel que em excesso de velocidade causou um acidente, como, por exemplo, tem ocorrido com veículos Porsche. Neste caso o modelo é relevante, pois as próprias características de extrema potência e torque, associadas geralmente a imperícia do motorista para lidar com elas, fazem parte da dinâmica do acidente.
Não é o caso desta ocorrência envolvendo a Cybertruck, insisto – ao menos até prova em contrário, que, neste primeiro momento, de qualquer forma, absolutamente inexiste.
Pergunto: se fosse um carro a combustão de modelo absolutamente ordinário, haveria manchetes destacando seu nome e fabricante? Será que pelo fato de ser veículo elétrico isso foi absolutamente destacado, em nome de alguns cliques a mais, mesmo que não faça a mínima diferença no caso em questão? A resposta, bem, já é sabida pelos leitores...
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