BYD inaugura três vezes uma fábrica que não fabrica nada

Montadora chinesa reveste propositalmente a unidade baiana em um enredo confuso

Não se pode negar que a BYD vem quebrando seguidos recordes, seja de vendas, de desembarque de carros importados ou de velocidade em autódromos alemães.

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Porém quase ninguém percebeu o mais significativo (e inédito) recorde da montadora chinesa no Brasil: a de inaugurações da unidade de Camaçari, na Bahia. Já são três até o momento, e certamente haverá outras mais à frente.

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INVENCIONICES E MALABARISMOS LINGUÍSTICOS

Inauguração da unidade em julho de 2025, quando foi apresentado um Mini Dolphin dito 100 nacional
Inauguração da unidade em julho de 2025, quando foi apresentado um Mini Dolphin dito 100% nacional
Imagem: Divulgação

A primeira inauguração ocorreu em março de 2024, na cerimônia que marcou o início da construção da unidade. Enquanto o mundo todo chama esse momento de assentamento de pedra fundamental, a BYD preferiu assegurar que aquilo se tratava da “inauguração da futura unidade”.

Vejam bem: este colunista está apenas repetindo as palavras usadas oficialmente pela própria montadora chinesa –uma pura invencionice para justificar a demora entre o anúncio da construção da unidade, oito meses antes, e o início efetivo das obras.

Depois de um monte de idas, vindas e atrasos sem explicações oficiais, finalmente veio a real inauguração da unidade, em julho deste ano. Na ocasião a BYD inclusive mostrou o que chamou de “primeiro Dolphin Mini 100% brasileiro”, ali, na, segundo ela, “novíssima fábrica da BYD em Camaçari, um complexo industrial de última geração, onde cada metro quadrado respira tecnologia do futuro”.

No mundo normal isso já teria sido o suficiente, mas a BYD parece não viver no mundo normal, ao menos aqui no Brasil.
Surpreendentemente, e para meu espanto, neste mês de outubro a empresa inaugurou outra vez a mesmíssima unidade. A única diferença é que desta vez houve a presença do Presidente da República e seu vice, Lula e Alckmin.

Diante do fato, um respeitado veículo de imprensa especializada, em vez de questionar mais uma inauguração da mesma coisa, preferiu chamar o evento anterior de “pseudo-inauguração” e de “inauguração simbólica” – mas toda inauguração não é simbólica?

O mais incrível é que em nenhum destes três momentos a BYD contou oficialmente que em Camaçari, hoje, são apenas montados veículos que chegam da China soldados e pintados, ou seja, quase prontos. A única operação feita ali é, literalmente, a montagem de carros. Há apenas um único fornecedor nacional homologado, que entrega pneus que são instalados nos veículos que a BYD diz serem “do Brasil”.

Segunda inauguração do mesmo local, desta vez com presença de autoridades, em outubro
Segunda inauguração do mesmo local, desta vez com presença de autoridades, em outubro
Imagem: Divulgação

E então, como já fizera anteriormente, a BYD se utiliza de malabarismos linguísticos para mascarar esse fato. Em um recente comunicado à imprensa sobre o modelo Song Pro GS, por exemplo, a empresa disse que o modelo “agora tem linha de montagem no Brasil”.

É verdade? Sim, é, mas o que não se diz é que todo o processo anterior à linha de montagem em uma fábrica de veículos, como solda e pintura, por exemplo, inexiste em Camaçari.

Se quisesse ser efetivamente transparente e objetiva em sua comunicação, a BYD diria apenas que o Song Pro GS é montado no Brasil – o que não seria nenhum demérito. O problema é que a empresa usa deste e outros artifícios para dar a impressão de que fabrica carros no Brasil, sendo que a tal fábrica de Camaçari, pelo menos até este momento, não fabrica absolutamente nenhum veículo, apenas monta. E essa diferença é abissal.

A verdadeira notícia é que – como alertou esse colunista ainda em 2024 – a produção efetiva de algum carro da BYD na Bahia ficou para 2026. Essa é a informação. E parece que é exatamente isso que a BYD não quer que seja mostrado ou falado, o que, por sua vez, dá a jornalistas mais experientes, ou ao menos mais atentos, a impressão de que a empresa trabalha sua comunicação de forma a distorcer e induzir a mídia a erro, inclusive sem a mínima necessidade, quando divulga comunicados à imprensa.

Dito isso, convido os nobres leitores a aguardarem, para o ano que vem, novas manchetes de mais uma inauguração da unidade da BYD em Camaçari, talvez, quando, finalmente, houver algum processo fabril efetivo por lá. Não perca as contas: será a quarta cerimônia, e depois uma quinta, sexta. E assim o inédito recorde só crescerá...

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