BYD inaugura três vezes uma fábrica que não fabrica nada
Montadora chinesa reveste propositalmente a unidade baiana em um enredo confuso
Não se pode negar que a BYD vem quebrando seguidos recordes, seja de vendas, de desembarque de carros importados ou de velocidade em autódromos alemães.
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Porém quase ninguém percebeu o mais significativo (e inédito) recorde da montadora chinesa no Brasil: a de inaugurações da unidade de Camaçari, na Bahia. Já são três até o momento, e certamente haverá outras mais à frente.
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INVENCIONICES E MALABARISMOS LINGUÍSTICOS

Imagem: Divulgação
A primeira inauguração ocorreu em março de 2024, na cerimônia que marcou o início da construção da unidade. Enquanto o mundo todo chama esse momento de assentamento de pedra fundamental, a BYD preferiu assegurar que aquilo se tratava da “inauguração da futura unidade”.
Vejam bem: este colunista está apenas repetindo as palavras usadas oficialmente pela própria montadora chinesa –uma pura invencionice para justificar a demora entre o anúncio da construção da unidade, oito meses antes, e o início efetivo das obras.
Depois de um monte de idas, vindas e atrasos sem explicações oficiais, finalmente veio a real inauguração da unidade, em julho deste ano. Na ocasião a BYD inclusive mostrou o que chamou de “primeiro Dolphin Mini 100% brasileiro”, ali, na, segundo ela, “novíssima fábrica da BYD em Camaçari, um complexo industrial de última geração, onde cada metro quadrado respira tecnologia do futuro”.
No mundo normal isso já teria sido o suficiente, mas a BYD parece não viver no mundo normal, ao menos aqui no Brasil.
Surpreendentemente, e para meu espanto, neste mês de outubro a empresa inaugurou outra vez a mesmíssima unidade. A única diferença é que desta vez houve a presença do Presidente da República e seu vice, Lula e Alckmin.
Diante do fato, um respeitado veículo de imprensa especializada, em vez de questionar mais uma inauguração da mesma coisa, preferiu chamar o evento anterior de “pseudo-inauguração” e de “inauguração simbólica” – mas toda inauguração não é simbólica?
O mais incrível é que em nenhum destes três momentos a BYD contou oficialmente que em Camaçari, hoje, são apenas montados veículos que chegam da China soldados e pintados, ou seja, quase prontos. A única operação feita ali é, literalmente, a montagem de carros. Há apenas um único fornecedor nacional homologado, que entrega pneus que são instalados nos veículos que a BYD diz serem “do Brasil”.

Imagem: Divulgação
E então, como já fizera anteriormente, a BYD se utiliza de malabarismos linguísticos para mascarar esse fato. Em um recente comunicado à imprensa sobre o modelo Song Pro GS, por exemplo, a empresa disse que o modelo “agora tem linha de montagem no Brasil”.
É verdade? Sim, é, mas o que não se diz é que todo o processo anterior à linha de montagem em uma fábrica de veículos, como solda e pintura, por exemplo, inexiste em Camaçari.
Se quisesse ser efetivamente transparente e objetiva em sua comunicação, a BYD diria apenas que o Song Pro GS é montado no Brasil – o que não seria nenhum demérito. O problema é que a empresa usa deste e outros artifícios para dar a impressão de que fabrica carros no Brasil, sendo que a tal fábrica de Camaçari, pelo menos até este momento, não fabrica absolutamente nenhum veículo, apenas monta. E essa diferença é abissal.
A verdadeira notícia é que – como alertou esse colunista ainda em 2024 – a produção efetiva de algum carro da BYD na Bahia ficou para 2026. Essa é a informação. E parece que é exatamente isso que a BYD não quer que seja mostrado ou falado, o que, por sua vez, dá a jornalistas mais experientes, ou ao menos mais atentos, a impressão de que a empresa trabalha sua comunicação de forma a distorcer e induzir a mídia a erro, inclusive sem a mínima necessidade, quando divulga comunicados à imprensa.
Dito isso, convido os nobres leitores a aguardarem, para o ano que vem, novas manchetes de mais uma inauguração da unidade da BYD em Camaçari, talvez, quando, finalmente, houver algum processo fabril efetivo por lá. Não perca as contas: será a quarta cerimônia, e depois uma quinta, sexta. E assim o inédito recorde só crescerá...
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