A Ford anunciou nesta terça-feira (19) que vai parar a produção de caminhões e do hatch Fiesta na América do Sul e essa é uma ação alinhada com o posicionamento global da marca de mudar o negócio da companhia de uma "simples" vendedora de carros para uma empresa que presta serviços de mobilidade.

Como consequência dessa reestruturação o fim das atividades na fábrica de São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, é inevitável e ocorrerá ao longo deste ano. Com isso a montadora deixará de comercializar as linhas Cargo, F-4000, F-350 e o Fiesta.

Em nota a empresa informou que buscou diversas soluções para não interromper a produção, inclusive com a possibilidade de parcerias e venda da operação. Manter o negócio exigiria uma demanda expressiva de investimentos visando atender às necessidades do mercado e crescentes custos com itens regulatórios sem ter retorno pois, segundo a montadora, não havia um caminho viável para um negócio lucrativo e sustentável.

“A Ford está comprometida com a América do Sul por meio da construção de um negócio rentável e sustentável, fortalecendo a oferta de produtos, criando experiências positivas para nossos consumidores e atuando com um modelo de negócios mais ágil, compacto e eficiente. Sabemos que essa decisão terá um impacto significativo sobre os nossos funcionários de São Bernardo do Campo e, por isso, trabalharemos com todos os nossos parceiros nos próximos passos. Atuando em conjunto com concessionários e fornecedores, a Ford manterá o apoio integral aos consumidores no que se refere a garantias, peças e assistência técnica”, disse Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul.

Essa ação condiz com o que a fabricante já havia anunciado anteriormente, como a redução de 20% do quadro de funcionários e à estrutura administrativa na região, além do encerramento de produção do Focus na Argentina. Agora a montadora está focada na fabricação de SUVs e picapes, mercado que, segundo a Ford, tem tido crescente preferência dos consumidores. Além disso, a parceria com a Volkswagen para desenvolver picapes de médio porte também afetou a linha de produção da montadora americana.

Este alinhamento está de acordo com a estratégia anunciada em abril de 2018 nos Estados Unidos, quando a Ford deixou claro que vai parar de produzir carros de passeio como Fusion, Focus e Fiesta na América do Norte - voltando suas atenções para os veículos utilitários, pois um estudo feito pela fabricante aponta que 90% dos compradores estão interessados em SUVs, crossovers e picapes. À época, os planos para o Brasil ainda eram dúvida, mas agora já começam a sinalizar que a América do Sul deve seguir o mesmo caminho. O grande problema é que o Ford Ka é um campeão de vendas, ocupando o terceiro lugar entre os carros mais vendidos do país em 2018, e ele é um automóvel de passeio e está dentro do espectro de veículos que a americana quer descontinuar.

Em decorrência desse anúncio, a Ford prevê um impacto de aproximadamente US$ 460 milhões em despesas não recorrentes. Cerca de US$ 100 milhões serão relacionados à depreciação acelerada e amortização de ativos fixos. Os valores remanescentes de aproximadamente US$ 360 milhões impactarão diretamente o caixa e estão, em sua maioria, relacionados a compensações de funcionários, concessionários e fornecedores. A maior parte dessas despesas não recorrentes será registrada em 2019 e é parte integrante dos US$ 11 bilhões em despesas, com efeito no caixa de US$ 7 bilhões, que a companhia prevê utilizar para a reestruturação dos seus negócios globais.

Vinicius Montoia

Formado pela PUC-SP em jornalismo, Vinicius já atua no setor automobilístico desde 2013. É criador do canal Narração Esportiva do Youtube, projeto que conta a história dos maiores narradores esportivos do país

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