A discussão em torno do Rota 2030, nova balizador da indústria automobilística, segue os preceitos do antecessor, o Inovar Auto. Basicamente, o governo quer que os produtos melhorem de qualidade e sejam mais eficientes, emitindo menos poluentes e consumindo menos combustível.

Até aí tudo lindo. O problema é que para o consumidor aí se esgotam as vantagens do programa. A condição do governo para que as montadoras melhorem seus produtos é terem descontos por meio de incentivos fiscais. Em outras palavras, no caso do Inovar Auto, as montadoras investiam em produtos fabricados (ou mesmo montados) no Brasil e que atingissem determinadas metas de emissão e consumo. Feito isso elas não pagariam valores extras de impostos.

Ou seja, o governo não abriu mão do seu enorme naco de impostos nos veículos, um dos mais altos do mundo (se não o maior) e as marcas apenas buscaram recuperar o investimento nessas melhorias. Em compensação ganharam um mercado praticamente fechado para veículos importados, mais baratos e modernos em muitos casos.

Esse acordo de amigos expõe uma característica muito clara do mercado de automóveis no Brasil, a de que o consumidor é apenas um detalhe na estratégia de faturar com a venda de produtos caros em que marcas ganham, empregos são mantidos e o governo arrecada muito.

Vejam, por exemplo, o que o novo presidente da FCA, Antonio Filosa, disse nesta semana ao anunciar um investimento de R$ 14 bilhões no Brasil até 2022. Esse dinheiro é bem-vindo, claro, já que ele presume avanços tecnológicos nesses veículos. O executivo, no entanto, revelou que o principal objetivo da montadora é aumentar o “ticket médio” de seus produtos.

 

"Governo e montadoras preferem vender poucos carros mas por preços bem altos para arrecadar muito"

 

Se você nunca ouviu esse termo na vida não se espante. Ele quer dizer que uma marca quer que você gaste mais dinheiro com ela por venda. Até aí isso não é crime desde que esse gasto traga algum benefício à altura. O problema está no fato de que o automóvel no Brasil ser muito caro e não é por conta do dólar alto ou da crise econômica. A razão, como Autoo já mostrou aqui, é que o poder de compra do brasileiro é muito baixo na média. Ao mesmo tempo os impostos são extremamente altos fazendo com que tenhamos uma distorção no mercado onde compramos carros que lá fora são básicos mas que aqui posam de "premium".

Em outras palavras, governo e montadoras preferem vender poucos carros mas por preços bem altos para arrecadar muito mais. Poderia ser diferente? Com certeza. As alíquotas de impostos poderiam ser reduzidas conforme a eficiência do modelo e, por tabela, seu preço final ao consumidor. As fabricantes ganhariam pelo volume de vendas, diluindo seu investimento em mais unidades e empregando mais gente. Mesmo o governo poderia arrecadar mais dependendo da atividade econômica. Mas essa estratégia não parece motivar a indústria e nossos burocratas.

Aumentar o ticket médio, por sua vez, significa que você vai gastar mais dinheiro ao entrar numa concessionária, mas não necessariamente terá um produto melhor. Veja o caso dos SUVs. Muitos deles são versões ampliadas de modelos compactos simplórios mas custam o mesmo que carros de porte médio, mais sofisticados.

Em vez de pagar por uma suspensão independente, freios a disco nas quatro rodas ou motor e câmbio mais eficientes, gastamos para ter um visual de jipinho mesmo que esse veículo não faça nada de mais fora do asfalto. Pior, boa parte deles gasta muito combustível e anda pouco afinal não dá para fazer milagre em veículos tão pesados e com aerodinâmica precária.

Vender um bom produto e barato, no entanto, dá trabalho e é arriscado. Melhor é nos convencer de que esses carros são desejados mesmo que não valham tanto assim. E com o aval do "sócio" governo.

Ricardo Meier

Publisher do AUTOO, é o criador do site e tem interesse especial pelo sobe e desce do mercado, analisando os números de vendas de automóveis todos os meses

Ricardo Meier | http://www.jcceditorial.com.br/