O navio fantasma da BYD
Nem Jack Sparrow e seu Pérola Negra teriam causado tamanho alvoroço ao atracarem em um porto brasileiro
Se o capitão Jack Sparrow, da série de filmes Piratas do Caribe, tivesse atracado seu navio fantasma Pérola Negra no Portocel, em Aracruz, no Espírito Santo, provavelmente não causaria tamanho alvoroço quanto o cargueiro Explorer 1, da BYD, que recentemente desembarcou por lá nada menos de 5.524 carros, de uma vez só, das famílias Dolphin, Song e Yuan.
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Talvez como estratégia para camuflar mais um (mais um!!) atraso em seu cronograma de produção nacional, a BYD decidiu fazer da operação de descarga dos veículos uma atração – ou, até mesmo, uma provocação.
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Convidou vários veículos de imprensa, especializados no setor automotivo ou não, para acompanhar o processo de desembarque dos carros trazidos da China. Como se não bastasse seu diretor de comunicação, Pablo Toledo, decidiu subir ainda mais o tom e publicou em seu Linkedin texto no mínimo polêmico.
Indústria nacional a ver navios?

Imagem: Divulgação
“Vim hoje a Portocel conhecer o Explorer 1, que desembarcou 5.524 BYD e fez naufragar mais uma fake news plantada para tentar frustrar o inevitável avanço da eletromobilidade. Pois se os pátios estavam tomados de carros que a BYD não conseguia vender, por que trazer mais?
Para repor os modelos que estão prestes a se esgotar”, ele mesmo questionou e respondeu na rede social. Deixando as sutilezas de lado, o executivo ainda encerrou a postagem afirmando que “daqui já é possível avistar uma indústria que, em alguns anos, vai ficar a ver navios”. A provocação não ficou sem resposta.
A Anfavea, que representa as fabricantes de veículos instaladas no Brasil, emitiu nota à imprensa dizendo receber “com preocupação a chegada de um navio com 5,5 mil automóveis em um momento em que já há mais de 40 mil unidades importadas em estoque”.
Para a associação, “sem um equilíbrio saudável na balança comercial essa indústria, que gera mais de 1,3 milhão de empregos diretos e indiretos, está sob ameaça”. E assim “ratifica novamente ao governo federal o apelo para que seja apreciada a recomposição imediata dos 35% de Imposto de Importação” (atualmente a alíquota é de 18% para elétricos, 20% para híbridos plug-in e 25% para híbridos). No entender da Anfavea “nenhum país do mundo tem uma barreira tão baixa para importações, o que torna o nosso importante mercado alvo fácil”.
Resposta e contrarresposta

Imagem: Reprodução/Secom Espírito Santo
Resposta rápida então veio da Abeifa, que representa as importadoras (e que conta com a BYD como associada). Para seu presidente, Marcelo Godoy, “em 2023 foi acordado o faseamento do imposto de importação para veículos eletrificados importados, por meio do qual em julho de 2026 a alíquota chegará a 35%”.
A associação então pede “manutenção das regras do jogo” e diz que “políticas protecionistas não trazem benefício ao Brasil: nos anos 1990 não fosse a abertura do mercado interno para importados o País não teria o parque industrial de hoje, com dezenas de fabricantes”.
A contrarresposta ficou por conta do Sindipeças, que representa os fabricantes nacionais de autopeças. Sua nota oficial apoia a Anfavea, pelo “risco que a importação sem precedentes de veículos elétricos e híbridos representa para a cadeia automotiva no Brasil”.
Seu presidente, Cláudio Sahad, argumenta que “as alíquotas atuais têm se mostrado insuficientes e representam total desincentivo ao investimento na produção local desse tipo de veículo. O poder público precisa prestar atenção ao que está ocorrendo e considerarfortemente os danos, atribuindo ao fato a urgência que lhe é própria”.
O Carnaval passou e... Nada

Imagem: Divulgação
Independentemente de quem pode ter razão não se pode negar que a BYD conseguiu criar com seu “navio fantasma” uma cortina de fumaça perante o que realmente importa: quando afinal começa a produção nacional da empresa em Camaçari, Bahia.
A última informação oficial, de dezembro de 2024, dava conta de início da montagem em SKD (veículos importados semi desmontados) “após o Carnaval de 2025”. Bem, o Carnaval passou e nada. E a BYD, espertamente, sequer tocou no assunto – além de não justificar oficialmente mais um atraso, quando perguntada passou a falar agora apenas em produção local “em 2025”, sem especificar mês ou ao menos trimestre, quiçá semestre.
Vou lembrar que esta coluna alertou em dezembro de 2024 que a coisa caminhava para efetiva produção local da BYD no Brasil só lá para 2026; essa realidade agora, apenas três meses depois, soa como cada vez mais provável.
Assim sendo, este colunista oferece humilde sugestão a todos os envolvidos e ao governo federal: que o imposto de importação para os modelos eletrificados chineses suba um pouquinho mês a mês, sem limite, até que a produção nacional da BYD (e também a da GWM) comece efetivamente. Este parece ser o único remédio contra a vagareza e sonolência com que estas empresas, infelizmente, encaram o processo de produção de seus veículos em território nacional.
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