Milad Kalume Neto

Engenheiro Mecânico formado pela Escola de Engenharia Mauá, Advogado pela PUC/SP e Pós-graduado em Administração pela FGV-SP. Atualmente é Consultor Independente do Mercado e de Mobilidade.

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Juros, crédito e carros: a evidência econométrica por trás das vendas

Dia 11 de fevereiro escrevi que a manutenção da Selic em 15% pressiona o mercado automobilístico pois encarecia o crédito haja vista a maior parte das vendas dependerem de financiamento.

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Os juros elevados aumentam as parcelas, exigem maior entrada e levam consumidores e empresas a adiarem a troca de veículos reduzindo a demanda por veículos novos e desloca parte do consumo para segmento de usados.

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 Além disto pressiona os estoques, as margens e a produção espalhando este problema para toda a cadeia. o que acaba afetando fabricantes de autopeças, concessionários, emprego e investimentos na indústria.

A pedido da K.LUME Consultoria, Claudio R. Lucinda elaborou um material que mostra, na prática, os efeitos dos juros no mercado automobilístico. Embora ajude no controle da inflação, o patamar elevado de juros tende a desacelerar a atividade do setor e amplia os riscos de enfraquecimento econômico no curto e médio prazo.

A taxa básica de juros é um dos principais termômetros da economia brasileira e o mercado de automóveis costuma reagir com sensibilidade às mudanças na Selic. Esta questão é mais relevante neste momento, em que se espera um ciclo de afrouxamento da política monetária.

No decorrer do breve estudo iremos apresentar uma análise econométrica da relação entre a taxa de juros e das vendas mensais de automóveis no país desde o ano 2000 com o objetivo de quantificar essa relação e como é a reação ao longo do tempo das alterações das taxas de juros.

Os dados utilizados foram coletados diretamente do Banco Central do Brasil; as vendas mensais de automóveis e a taxa Selic mensal acumulada e anualizada. A amostra compreendeu o período de janeiro de 2000 até janeiro de 2026, cobrindo diferentes ciclos de política monetária, fases de expansão e recessão e mudanças relevantes no mercado de crédito.

Inicialmente o trabalho do Claudio Lucinda apresentou um gráfico que sintetiza a trajetória conjunta das vendas mensais de automóveis e da taxa Selic ao longo de mais de duas décadas. Nele, as barras de vendas aparecem em milhares de unidades no eixo esquerdo, enquanto a Selic é apresentada no eixo direito em porcentagem ao ano, permitindo uma leitura integrada das duas variáveis.

Vendas de automóveis e taxa Selic

Gráfico
Gráfico Imagem: Reprodução

O gráfico evidencia que períodos de juros elevados tendem a coincidir com fases de vendas mais contidas enquanto ciclos de queda da Selic costumam acompanhar recuperações graduais no mercado de automóveis.

Embora essa correlação visual não prove causalidade por si só, ela reforça a percepção de que o custo do crédito — diretamente influenciado pela taxa básica — pesa de forma decisiva nas decisões de compra das famílias, em especial em um segmento altamente dependente de financiamento. Com esta primeira percepção e entendimento da correlação, Lucinda foi além.

Utilizou um método econométrico mais sofisticado, o modelo de correção de erros vetorial (VECM) tratando a Selic e as vendas de automóveis como um sistema interdependente ao longo do tempo.

Os resultados indicam que vendas e juros não caminham de forma totalmente independente no longo prazo. Em termos práticos, desvios persistentes em relação a esse equilíbrio tendem a ser corrigidos ao longo do tempo, seja por ajustes na taxa básica, seja por movimentos de demanda no mercado de veículos.

IRF: vendas ao choque da Selic

Gráfico
Gráfico Imagem: Reprodução

Para traduzir o modelo em uma linguagem mais próxima do leitor, simulamos o que aconteceria com o setor em resposta a um choque na taxa Selic e observamos como as vendas de automóveis reagiriam ao longo de 24 meses. Isso permite responder a uma pergunta concreta: o que acontece com o mercado de automóveis quando a taxa básica sobe de maneira inesperada?

Essa curva, chamada Função Resposta a Impulso (IRF) mostra que um aumento inesperado da Selic tende a provocar a redução nas vendas de automóveis nos meses seguintes, com o impacto mais intenso concentrado nos primeiros trimestres após o choque.

A faixa sombreada representa o intervalo de confiança de 95%, indicando a margem estatística de incerteza em torno da trajetória estimada, mas sem apagar o sinal predominante de queda na atividade do setor.

Os resultados ainda sugerem que a política monetária exerce influência relevante sobre o mercado automobilístico brasileiro, especialmente num horizonte de curto e médio prazos.  E, o que é mais significativo, tendo em vista o esperado ciclo de afrouxamento da política monetária com redução na taxa Selic, sinaliza um aumento nas vendas de automóveis em um horizonte mais curto.

Em momentos de discussão sobre ciclos de aperto ou afrouxamento da taxa básica, tais evidências ajudam a calibrar expectativas sobre o desempenho futuro do setor e a interpretar, sempre com base em dados, os movimentos observados nas fabricantes e nas concessionárias ao longo do tempo.

Material elaborado por Claudio R. Lucinda.

 

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