Milad Kalume Neto

Engenheiro Mecânico formado pela Escola de Engenharia Mauá, Advogado pela PUC/SP e Pós-graduado em Administração pela FGV-SP. Atualmente é Consultor Independente do Mercado e de Mobilidade.

Taxas de juros a 15% pesa mais do que parece

Selic alta: remédio para a inflação, veneno para os emplacamentos

A permanência da taxa Selic no atual patamar de 15% provoca consequências no mercado automobilístico. Entre questões diretas e indiretas, influenciam o consumidor e a indústria com o encarecimento dos financiamentos necessários aos investimentos ou a aquisição de veículos, a redução do poder de compra, o aumento do valor das parcelas, bem como diminui as vendas gerais do mercado, entre outros.

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Com juros elevados os consumidores, pessoas físicas e jurídicas, adiam a troca de seus veículos, os estoques sobem e a produção de veículos decresce impactando toda a cadeia.

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Juros sobre juros

Carro impacta em altos custos dentro do orçamento familiar
Com alta da selic, as taxas de juros para financiamento de veículos aumenta junto, criando um efeito dominó
Imagem: Reprodução internet

A Selic é a taxa básica de juros para empréstimos entre as instituições financeiras e é dela que partem as taxas de juros praticadas ao consumidor final. Segundo definição do Banco Central, “a taxa Selic é a taxa básica de juros da economia, que influencia outras taxas de juros do país, como taxas de empréstimos, financiamentos e aplicações financeiras. A definição da taxa Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo Banco Central (BC) para controlar a inflação”.

E o Banco Central também indica como ela é calculada? “A Selic é a taxa de juros média praticada nas operações compromissadas com títulos públicos federais com prazo de um dia útil. O BC realiza operações no mercado de títulos públicos para que a taxa Selic efetiva esteja em linha com a meta da taxa Selic, que é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC”.  Caso a taxa Selic se eleve, o custo do financiamento, realizado por juros compostos, dispara.

Novamente, como de costume, esta coluna cumpre um papel educativo e por juros compostos entende-se que para cada período do contrato há um “novo capital” para a cobrança da taxa de juros contratada. Esse “novo capital” é a soma do capital e do juro cobrado no período anterior (Banco Central). Em palavras mais simples, são os juros sobre os juros.

Com o crédito mais caro, as parcelas tornam-se igualmente maiores inviabilizando a compra para muitos por questões diversas que incluem a restrição de crédito.

No Brasil, historicamente, a venda de veículos novos ocorre entre 60 e 70% por intermédio de financiamentos sendo estes um dos três pilares que sustentam as vendas de veículos: preço do veículo, taxa de juros e liberação de crédito pelas instituições financeiras.

Ao se analisar o crédito, as instituições traçam um perfil financeiro e o risco de inadimplência das pessoas e/ou empresas definindo um risco para aquele tomador de recursos. Uma das formas que estas instituições têm de mitigar o risco de empréstimo é diminuindo o valor das parcelas e elas conseguem este efeito aumentando o valor da entrada.

Entretanto o processo naturalmente cria uma dificuldade na aquisição de novos veículos pois muitos passam a não conseguir mais adquirir veículos novos tendo que migrar para veículos seminovos ou usados ou postergando a compra.

O resultado inicial são as quedas nas vendas de veículos no mercado de veículos novos pois o efeito imediato do encarecimento do crédito é a redução do volume de emplacamentos. O mercado de seminovos e usados, por mais que sofram com os mesmos efeitos dos juros altos, tendem a sentir menos estes efeitos pois as parcelas dos veículos são menores haja vista possuírem preços dos veículos igualmente menores.

Cenário desafiador

Dependendo do uso, é mais interessante utilizar aplicativos de carona do que possuir um carro
Com a alta taxa de juros ter um carro pode não ser tão interessante quanto utilizar outros meios de transporte 
Imagem: Reprodução internet

Com a menor procura por veículos automotores, os concessionários tentam segurar os preços, mas os custos fixos dos concessionários permanecem elevados pressionando desta forma os preços. É quase uma “sinuca de bico” e os estoques começam a aumentar.
Sem procura e, muito pior, sem a devida vazão de veículos e com o aumento dos estoques da rede e dos fabricantes, existe a necessidade da regulação do sistema por intermédio da diminuição do ritmo de produção de veículos e autopeças.

Por fim, a ponta do iceberg, o risco de desemprego se eleva pois sem produção o risco de cortes se torna iminente.
Por todos estes motivos, aliados a outros como o aumento da inadimplência, eleições gerais, Copa do Mundo de Futebol e instabilidades políticas, projetamos um mercado menor em 2026 para números de emplacamentos entre 2,4 e 2,45 milhões de unidades.

 Produção, Exportação e o mercado de motos terão incrementos em relação a 2025. O mercado de pesados tende a sofrer mais do que qualquer outro… em geral, janeiro de 2026 começo menos acelerado do que em relação a 2025.

Em resumo, uma simples manutenção da taxa de juros básica em níveis elevados pode até conseguir controlar a inflação, mas influencia diretamente nas vendas de veículos, um dos primeiros setores a sentir os efeitos da economia no Brasil e, no fim, pode aumentar o desemprego pois não ajuda setores essenciais da economia. Se por um lado combate algo ruim, por outro mata o que está bom…

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