Há pouco mais de cinco anos, o segmento de SUVs médios era quase inóspito no Brasil. Poucos modelos, com destaque para o Hyundai ix35, exploravam a categoria em companhia dos japoneses Honda CR-V e Toyota RAV4, além da primeira geração do Volkswagen Tiguan.

A categoria seguia pacata até que, no fim de 2016, o Jeep Compass chegou como um furacão no mercado. Cativando o público logo na estreia, o Compass provou que os brasileiros estavam dispostos a pagar mais por um SUV que entregasse espaço interno e porta-malas superiores em relação aos utilitários esportivos compactos, bem como uma dose extra de equipamentos e eletrônica embarcada.

A produção local, um fator que ajudou a controlar o preço do Compass, obviamente segue como um catalisador para o sucesso comercial do SUV. É inegável que o representante da Jeep merece todo o mérito por impulsionar o segmento de SUVs médios no Brasil, uma vez que todas as fabricantes querem pegar carona na trilha aberta pelo Compass.

Desde os tempos em que oferecia versões mais acessíveis do Edge por aqui, a Ford ficou um bom tempo sem atuar no segmento em questão. Enquanto passava por uma profunda fase de reestruturação global, que culminou até mesmo com o fechamento de sua fábrica em São Bernardo do Campo (SP), a marca norte-americana aos poucos vai encontrando um caminho sem tantos sobressaltos para voltar a crescer no Brasil. 

Com o fim de modelos como o Fusion, Fiesta e Focus não só em nossa região como também nos EUA, daqui para a frente o portfólio da Ford no Brasil será composto apenas por SUVs, picapes e o Mustang, que seguirá como seu único carro de passeio graças à reputação associada a seu nome. Até mesmo o Ka, como abordamos, pode virar um crossover pequeno em sua próxima geração. Mas esse é um tema para o futuro. 

Se a ideia é tornar suas operações no Brasil mais rentáveis, é fato que acrescentar um SUV médio em sua linha de modelos tornou-se uma necessidade para a Ford. Analisando seu catálogo global, a decisão da marca foi importar o Territory ao país, modelo desenvolvido pela Ford em sua joint-venture na China com a Jiangling Motors Corporation (JMC).

Até mesmo para sentir a aceitação do público logo de cara, a Ford optou por um catálogo enxuto do Territory. O utilitários esportivo chega em duas versões, ambas com motor 1.5 turbo e câmbio automático CVT. Ao menos por enquanto, a Ford sequer vai adaptar o propulsor para o uso de etanol, alegando que a medida não é muito relevante para o segmento. Na categoria, entretanto, dois dos SUVs médios mais vendidos por aqui, no caso o próprio Compass e o VW Tiguan Allspace, contam com motores flex em suas versões mais acessíveis.

Em nosso primeiro contato com o Territory no Brasil, o Autoo avaliou a versão topo de linha Titanium, que se aproxima dos R$ 190 mil. Como era esperado, o modelo destaca-se pela lista de itens de série robusta, trazendo teto solar panorâmico, rodas de liga leve aro 18” e um bom pacote de assistentes de condução, com destaque para o alerta de pontos cegos, aviso de saída involuntária de faixa, alerta de colisão com frenagem autônoma de emergência, piloto automático adaptativo, assistente de estacionamento, entre outros itens.

 

Destaque também fica para o sistema de câmeras 360º com ótima resolução, a central multimídia com uma ampla tela de 10,1" e o sistema FordPass Connect, que permite, por meio de um modem instalado no carro, efetuar algumas funções como a abertura e fechamento das portas, partida remota, entre outras. É, portanto, um sistema equivalente ao OnStar da Chevrolet.

Por falar na conterrânea da Ford, a força da competição com a qual o Territory terá que lidar pode ser vista no Chevrolet Equinox. Importado do México, ele trouxe em sua linha 2020 o interessante catálogo Premier 1.5. Tabelado em R$ 154.990, ele traz sob o capô um motor de mesmo deslocamento que o do Territory e também dotado de turbo e injeção direta. Além de consideravelmente mais barato e tão equipado quanto o SUV da Ford, o Equinox Premier 1.5 soma a enorme vantagem técnica de oferecer tração integral. No Territory, apenas as rodas dianteiras são motrizes.

Em nosso contato com o novo SUV da Ford, fica claro que o seu principal atributo reside no amplo espaço interno. A predileção dos chineses por essa qualidade em um automóvel se faz presente no Territory, algo que colabora para torná-lo um veículo muito confortável, em especial para os passageiros na segunda fileira de assentos. Capaz de acomodar efetivamente cinco adultos em seu habitáculo, modelos como o Territory mostram a vocação dos SUVs médios como carros familiares. Mesmo o uso de cadeirinhas no assento traseiro não é um problema para o Ford.

Todo esse espaço na cabine do Territory, entretanto, cobrou a conta no porta-malas. O compartimento do SUV é um dos menores da categoria, com capacidade para 348 litros de bagagens. É bem menos do que um Compass (410 litros) é capaz de transportar, isso sem falar nos 468 litros do Equinox ou chegando até os 710 litros que é possível colocar no porta-malas do VW Tiguan Allspace em sua configuração de entrada 5 lugares.

Além da ênfase no espaço interno, o Territory não nega a origem do projeto chinês em alguns elementos da cabine como os apliques simulando madeira. O couro bege escolhido para a versão Titanium é de boa qualidade e demonstra um aspecto visual e tátil mais nobre, porém essa ideia de sofisticação não é acompanhada por alguns elementos plásticos encontrados na cabine. As teclas do volante multifuncional, por exemplo, nos pareceram simples demais, mesma sensação causada pelo material aplicado em alguns botões do console central. A ergonomia e a posição de dirigir do Territory, contudo, mostraram-se muito bem projetadas.

O Territory também se destacou em nossa avaliação pelo comportamento dinâmico. A Ford fez questão de explicar que seu time de engenheiros na América do Sul promoveu alguns aprimoramentos no Territory destinado ao nosso mercado, como a troca de buchas da suspensão e amortecedores. Como é característica da marca, o Territory tem respostas ao volante muito elogiáveis. Mérito também da suspensão independente nas quatro rodas, configuração que está presente em boa parte dos competidores diretos.

Com um 0 a 100 km/h em 11,8 segundos, a performance do Territory é apenas razoável, mesmo adjetivo que pode ser creditado ao consumo. Ele mostra-se um carro mais animado nas acelerações e retomadas em relação a um Compass flex, mas deveria entregar um nível de eficiência superior considerando os periféricos de seu motor e a presença do câmbio CVT. Capaz de alcançar parciais de 9,2 km/l na cidade e 10 km/l na estrada, o Territory deixa a desejar se comparado aos 9,5 e 11,7 km/l, respectivamente, que o Equinox 1.5 turbo percorre. O Chevrolet, inclusive, cumpre a prova de desempenho em competentes 9,2 segundos considerando a mecânica com tração dianteira.

Por estar inserido em um segmento repleto de excelentes modelos, o Territory, pelo valor cobrado em sua versão topo de linha, deveria se destacar mais em atributos como a eficiência mecânica. Ele traz como principais argumentos a cabine ampla e o pacote de tecnologia robusto, porém diversos competidores entregam praticamente o mesmo cobrando bem menos. Alguns rivais, como o Tiguan Allspace, ainda se diferenciam pela versatilidade dos 7 lugares, algo importante para famílias maiores.

Se a ideia da Ford é vender um SUV médio por cerca de R$ 190 mil, talvez o norte-americano Escape em sua mais recente geração poderia chegar ao Brasil com mais apelo. A produção restrita aos EUA, somada às instabilidades cambiais dos últimos meses, tornam-se alguns complicadores para que ele desembarque por aqui tão cedo. Talvez só mesmo com o conjunto propulsor híbrido é que teríamos as condições para receber o Escape no país. O preço, porém, deverá ficar acima dos R$ 200 mil.

Em paralelo, uma alternativa que parece cada vez mais concreta é a vinda do Bronco Sport ao Brasil. Importado do México, onde é produzido na mesma fábrica de onde recebíamos o Fusion, o SUV recém-lançado chegaria com bem mais condições de desbancar os concorrentes. Enquanto isso, talvez o Territory funcione para a Ford ir abrindo espaço no segmento. Vamos ver, a partir de setembro, se a receita funciona.

 
 
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
Ford Territory 2021
Ford Territory 2021
 
 

Ficha técnica

Ford Territory 2021 Titanium 1.5 16V gasolina automático 4p
Preço R$ 187.900 (08/2020)
Categoria SUV médio
Motor 4 cilindros, 1490 cm³
Potência 150 cv a 5300 rpm (gasolina)
Torque 22,9 kgfm a 1500 rpm
Dimensões Comprimento 4,58 m, largura 1,936 m, altura 1,674 m, entreeixos 2,716 m
Peso em ordem de marcha 1632 kg
Tanque de combustível 52 litros
Porta-malas 348 litros
Veja ficha completa

O "Guru dos Carros", César Tizo se juntou ao time este ano e está à frente dos portais AUTOO e MOTOO. É o expert em aconselhar a compra de automóveis

César Tizo | http://www.jcceditorial.com.br/