Carro autônomo: como tudo começou
O primeiro incentivo para a tecnologia que pretende revolucionar a indústria automotiva está prestes a completar 10 anos
Hoje praticamente não se fala em outra coisa. Os carros autônomos são o assunto que domina a pauta da indústria automotiva e motivou até gigantes da tecnologia, como o Google, a entrar nessa onda. Grandes fornecedores e fabricantes correm contra o tempo para aprimorar a tecnologia que fará os carros trocarem de faixa sozinhos, acionarem os freios e até lhe buscar na porta de casa. Algo que fará a alegria de empresas como a Uber, já que não dependerá mais de motoristas humanos para exercer sua atividade. Mas qual foi a origem disso tudo? Quem resolveu incentivar o desenvolvimento da tecnologia dos carros autônomos?
Quem explica é Red Whittaker, professor de robótica na Carnegie Mellon University, em entrevista ao Automotive News. “O big bang dos carros autônomos começou em um sábado, no dia 3 de novembro de 2007. Esse foi o momento”, relembra Whittaker.
O professor explica que no mês em questão o Departamento de Defesa dos EUA convidou os mais destacados cientistas de transporte avançado em uma base na Califórnia para resolver um problema: fazer com que um veículo percorresse um circuito de 96 km (60 milhas) com alguns obstáculos sem qualquer intervenção humana. A ideia do Departamento de Defesa era mostrar que esse tipo de tencologia era possível, prático, seguro e até mesmo financeiramente atrativo para as empresas automobilísticas em um futuro distante fomentar uma cidade com carros sem ningúem ao volante.
O evento na Califórnia foi o suficiente para que muitos visionários vissem ali a tecnologia que poderia promover uma das grandes evoluções para a indústria automobilística desde a invenção do próprio carro.
Claro que a ideia do órgão governamental dos EUA também teria fins militares, como construir veículos robóticos capazes de se aproximar de carros suspeitos em zonas de combate, explorar zonas de difícil acesso, dentre outras possibilidades de aplicação.
Um grande incentivo para o desenvolvimento da tecnologia dos veículos autônomos ocorreu em 2004, quando a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency, ou Agência para Pesquisa de Projetos Avançados de Defesa) ofereceu um prêmio de US$ 1 milhão para o vencedor no DARPA Grand Challenge, concurso onde um veículo autônomo deveria conseguir completar um percurso de 241 km (150 milhas) no deserto de Mojave.
Infelizmente nenhuma equipe conseguiu completar o desafio, porém, em 2005, a DARPA ofereceu um prêmio de US$ 2 milhões e cinco equipes conseguiram terminar o percurso. O vitorioso foi o time da universidade de Stanford com um Volkswagen Touareg adaptado chamado Stanley, que você confere na abertura do texto.
O desafio proposto pela DARPA começou a despertar cada vez mais atenção, tanto que Steve Wozniak, co-fundador da Apple, além de Larry Page e Sergey Brin, os responsáveis por dar ao mundo o Google, estavam na platéia de uma das edições.
Já em 2007, relembra o professor Whittaker, foi quando o desafio da DARPA migrou para situações mais próximas com a realidade do trânsito urbano, mudando o nome para Urban Challenge e saido de vez da árida paisagem de um deserto. A equipe de Whittaker, com um Chevrolet Tahoe adaptado, foi a vencedora da edição e além do prêmio de US$ 2 milhões ajudaram a chamar a atenção da indústria para o tema. “Ali nós demos a ignição para o interesse da indústria. Fornecedores começaram a se perguntar como nós não desenvolvemos esse tipo de tecnologia?”, revela o professor.
A partir daí os participantes dos desafios da DARPA tornaram-se figuras importantes dentro das empresas de computação e fabricantes de automóveis na medida em que as montadoras vislumbraram um futuro dos carros autônomos.
“Essa é a principal parte da história. Uma ideia que emergiu de fora da tradicional indústria automotiva e permitiu que compahias como o Google, com sua própria cultura criativa de movimento rápido, fez a ideia se desenvolver de uma forma bem mais rápida do que o normal”, revelou um funcionário do Google que pediu anonimato para o Automotive News. Não por acaso, o Google anunciou em 2010 que estava trabalhando no desenvolvimento de tecnologias para carros autônomos em grande parte inspirado pelo que viu nos desafios da DARPA.
Whittaker relembra que, ao fim do desafio realizado em 2007, um dos membros de uma equipe perguntou ao diretor da DARPA à época, Tony Tether, quando seria o próximo evento e o que a agência estava preparando. A resposta de Tether foi profética. “Não haverá outro desafio. A missão de vocês está cumprida. Vocês atingiram o que esperávamos que vocês atingissem. O trabalho da DARPA foi iniciar os prímeiros passos da tecnologia, agora vocês devem sair por aí e fazer algo com isso”.
Cerca de 10 anos as palavras – e o objetivo de Tether e da DARPA – se concretizaram. Não só carros, como também tratores, máquinas de mineração, dentre outros equipamentos deverão ganhar tecnologia autônoma em breve, ajudando a tornar mais seguras e produtivas as mais diversas atividades até então realizadas por humanos.
