Milad Kalume Neto

Engenheiro Mecânico formado pela Escola de Engenharia Mauá, Advogado pela PUC/SP e Pós-graduado em Administração pela FGV-SP. Atualmente é Consultor Independente do Mercado e de Mobilidade.

Fábrica de semicondutores Ceitec: o Brasil está olhando o chip certo?

Um chip que pode mudar o papel do mercado brasileiro

Durante muitos anos, discutir semicondutores no Brasil era quase um exercício de nostalgia. Enquanto Estados Unidos, Taiwan, Coreia do Sul e, mais recentemente, a China aceleravam seus investimentos, nós fechávamos nossa fábrica nacional de chips.

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O maior problema provavelmente nunca foi produzir semicondutores, mas participar da corrida de forma errada.

Controlador de energia

Linha de montagem
Linha de montagem também tem evoluído no que diz respeito os processos produtivos
 Imagem: Divulgação

Nos últimos anos, a indústria automobilística mudou profundamente em nível mundial. No que tange aos semicondutores, a disputa já não se resume aos processadores que equipam computadores ou smartphones, pois a transição energética, a eletrificação da mobilidade, a inteligência artificial, os data centers e a expansão das energias renováveis criaram uma demanda crescente por outro tipo de componente: os semicondutores de potência.

Durante mais de um século, a indústria automobilística evoluiu no aperfeiçoamento de motores, transmissões, segurança, suspensões e processos produtivos. Hoje, boa parte da inovação migrou para a eletrônica.

Um veículo eletrificado moderno utiliza centenas e, em alguns casos, milhares de semicondutores responsáveis por controlar motores elétricos, inversores, baterias, carregadores, sistemas de segurança, conectividade e assistência à condução.

O diferencial competitivo do veículo moderno deixou de estar apenas na mecânica e migrou para a capacidade de controlar energia, processar informações e integrar software.

É justamente por este motivo que os semicondutores se tornaram estrategicamente importantes.

E é justamente por este motivo que a reativação da Ceitec ganhou uma dimensão diferente ao concentrar esforços nos dispositivos de carbeto de silício (SiC). Embora pouco conhecido fora do meio técnico, este material representa uma das maiores evoluções recentes da eletrônica de potência.

Comparados aos dispositivos convencionais de silício, os componentes de SiC operam com tensões mais elevadas, suportam temperaturas maiores e apresentam perdas elétricas significativamente menores. Na prática, permitem inversores mais eficientes, carregadores mais rápidos e melhor aproveitamento da energia armazenada na bateria.

E o que isso significa na prática? Significa maior autonomia, menor geração de calor, redução de peso em alguns sistemas e ganhos de eficiência que fazem diferença justamente onde o veículo eletrificado ainda enfrenta seus maiores desafios.

Não por acaso, fabricantes como Tesla, BYD, Mercedes-Benz, Hyundai e diversos fornecedores globais ampliam rapidamente a utilização dessa tecnologia.

A decisão de direcionar os investimentos para os dispositivos de potência mostra uma compreensão mais madura do mercado e, obviamente, não tem qualquer pretensão em competir com Intel, TSMC ou Samsung na fabricação dos chips mais sofisticados do mundo.

Fase de transição

Mercedes quer usar inteligência artificial para ajudar a fabricar carros
Indústria automotiva passa por fase de transição com grande investimentos no desenvolvimento tecnológico
Imagem: Divulgação

Neste estágio inicial, o Brasil não pode sequer pensar em liderar a produção dos processadores utilizados em inteligência artificial ou smartphones, mas pode desenvolver competência em segmentos específicos onde exista demanda crescente, menor concentração tecnológica e maior integração com sua própria base industrial.

E essa é uma diferença importante que indica maturidade no planejamento industrial e, por que não, uma visão diferenciada do Estado no planejamento de longo prazo, tão questionada por este colunista.

Não se trata de fabricar qualquer chip, mas de fabricar aqueles que melhor conversam com a transição da indústria que estamos vivendo hoje.

A China mostrou ao mundo que a tecnologia não nasce de forma isolada. Construiu sua indústria automobilística na base da troca tecnológica proveniente das joint-ventures iniciadas em 1979 e planejamento estratégico de longo prazo.

Coreia do Sul, Taiwan e até a própria China iniciaram boa parte de sua evolução tecnológica absorvendo conhecimento externo, formando engenheiros, desenvolvendo fornecedores locais e, gradualmente, ampliando sua autonomia.

O processo de transferência tecnológica, se bem pensado, não representa dependência permanente, mas representa uma redução da curva de aprendizado.

A indústria mundial de semicondutores continua sendo uma das mais competitivas do planeta, com ciclos de inovação extremamente curtos, investimentos elevados, rigorosa exigência de certificações e níveis de qualidade absoluta.

Será necessário um ambiente muito maior do que apenas uma fábrica de dispositivos de carbeto de silício para que este sistema seja útil ao Brasil. Um ecossistema mais amplo deverá ser desenvolvido o que envolverá universidades, centros de pesquisa, empresas de encapsulamento, desenvolvedores de eletrônica de potência, fabricantes de equipamentos e consumidores industriais.

Sem a demanda do mercado, por que haveria oferta? Qual seria a razão para todo esse desenvolvimento em um ambiente tão exigente? O caminho é longo

Entendo que, para o setor automobilístico brasileiro, a importância dessa iniciativa vai muito além da produção local de componentes.

Os veículos definidos por software, a eletrificação, a evolução dos sistemas de recarga e as arquiteturas elétricas de maior tensão ampliam continuamente a demanda por dispositivos de potência mais eficientes, e mesmo que a Ceitec não forneça diretamente para todas as montadoras instaladas no país, desenvolver conhecimento nessa área fortalece o elo estratégico com a cadeia produtiva.

O maior ganho, sem dúvida, é aumentar o conteúdo tecnológico desenvolvido no Brasil. O semicondutor é um produto fim que está presente numa cadeia muito mais ampla envolvendo engenheiros, pesquisadores, laboratórios, propriedade intelectual, softwares de projeto, materiais avançados e processos industriais extremamente complexos e sofisticados.

Desafio tecnológico

Fábrica da VW em Dresden, na Alemanha
Na era da eletrificação, a indústria automotiva se transforma a caminho da vantagem competitiva
Imagem: Divulgação

A reativação da Ceitec talvez simbolize uma mudança mais ampla na política industrial brasileira que, no pós-pandemia, entendeu que cadeias extremamente concentradas, como as de semicondutores, também representam riscos à economia.

Para se ter uma ideia, Estados Unidos, União Europeia, Japão, Índia e China passaram a investir pesadamente na produção doméstica de semicondutores não apenas para reduzir custos, mas para garantir segurança econômica e tecnológica.

O Brasil dificilmente terá a mesma escala, mas poderá optar por escolhas que levem a construir competências próprias.

Na economia da eletrificação, a vantagem competitiva não será definida apenas por quem monta automóveis, mas por quem domina os componentes que lhes dão vida.

É evidente que a Ceitec não transformará o Brasil em uma potência mundial dos semicondutores, pois R$ 220 milhões de investimentos não fazem milagre e resolverão o desafio tecnológico dessa magnitude.

Mas talvez o mais importante legado seja discutir como o Brasil deseja participar da próxima geração da eletrificação: Permanecer como consumidor de tecnologia de alto valor agregado ou como desenvolvedor de conhecimento? Permanecer como fornecedor de terras raras ou como criador de inteligência?

Esta é a verdadeira discussão a que nosso país precisa se envolver!

 

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