Por que um Dolphin é (bem) mais competitivo no mercado global que um ID.Polo?

Produzir um carro elétrico na China custa, em média, R$ 55 mil a menos que na Europa, diz estudo
Volkswagen ID.Polo ao lado do BYD Dolphin G DM-i

Volkswagen ID.Polo ao lado do BYD Dolphin G DM-i | Imagem: Reprodução/Gemini IA

A indústria automotiva europeia enfrenta um desafio que vai muito além da concorrência nas concessionárias: produzir carros elétricos custa significativamente mais do que na China. Segundo uma análise da consultoria AlixPartners, a diferença chega a US$ 11 mil por veículo ( ao redor de R$ 55 mil), vantagem que ajuda a explicar a expansão das marcas chinesas no mercado internacional.

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Além de preços competitivos, fabricantes como a BYD se beneficiam de uma cadeia industrial integrada e de ciclos de desenvolvimento mais curtos, enquanto as montadoras europeias enfrentam margens menores e precisam acelerar seus investimentos em eletrificação.

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Essa disputa pode ser observada em modelos como o BYD Dolphin, hatch elétrico chinês que combina bateria desenvolvida pela própria fabricante e recursos de conectividade, e o Volkswagen ID. Polo, aposta da marca alemã para ampliar o acesso à mobilidade elétrica. Aliás, o hatch da marca alemã acaba de ganhar uma versão mais em conta para ganhar em competitividade na comparação com rivais chineses.

Apresentado em abril de 2026, o modelo europeu teve preço inicial anunciado de 24.995 euros na Alemanha (em torno de R$ 140 mil) e autonomia de até 454 quilômetros pelo ciclo WLTP, conforme a versão. Embora não sejam uma comparação direta dos custos industriais calculados pela consultoria, os dois carros ilustram a disputa pelo mercado de elétricos compactos.

A pressão ocorre em um momento delicado para a indústria europeia. Entre 2021 e 2025, as margens EBITDA das montadoras do continente caíram de 13,2% para 6,9%, segundo os dados citados na análise da AlixParters.

Com menor rentabilidade, as empresas têm menos recursos para investir em novas plataformas, baterias, softwares e tecnologias de eletrificação. Ao mesmo tempo, as marcas chinesas ampliam sua presença na Europa, apoiadas por produtos atualizados com frequência e estratégias comerciais agressivas.

Eficiência chinesa

BYD Dolphin G DM-i
BYD Dolphin G DM-i
Imagem: Divulgação

O tempo necessário para lançar um automóvel é outro diferencial. Segundo a AlixPartners, as montadoras europeias levam, em média, até 60 meses para desenvolver um novo modelo, enquanto as chinesas conseguem concluir o processo em aproximadamente 24 meses. Essa agilidade permite incorporar tecnologias recentes e responder mais rapidamente às preferências dos consumidores.

A diferença também aparece na idade dos portfólios. Menos de um terço das vendas europeias vem de veículos lançados nos três anos anteriores. Entre as fabricantes chinesas, essa participação varia de 76% a 100%, conforme o estudo. Enquanto o BYD Dolphin exemplifica a estratégia chinesa de combinar eletrificação e tecnologia em um produto competitivo, o Volkswagen ID. Polo representa o esforço europeu para oferecer um elétrico compacto e acessível.

A velocidade de desenvolvimento está relacionada também à integração entre as diferentes etapas do projeto. Fabricantes chinesas conseguem concentrar sob o mesmo grupo ou em uma rede próxima de fornecedores o desenvolvimento de baterias, motores elétricos, sistemas eletrônicos e softwares.

Essa estrutura facilita a comunicação entre as equipes de engenharia, reduz a dependência de fornecedores distantes e permite testar alterações com maior rapidez. Para as montadoras europeias, acostumadas a ciclos de desenvolvimento mais longos e estruturas industriais complexas, reproduzir esse modelo exige mudanças organizacionais profundas.

Outro problema é a ociosidade industrial. Cerca de 15 fábricas europeias operam abaixo de 60% da capacidade, somando potencial de produção de aproximadamente 2,5 milhões de veículos por ano. Essa situação reduz a eficiência das instalações e aumenta o peso dos custos fixos por unidade.

Algumas fabricantes chinesas, por sua vez, avaliam fábricas europeias como possíveis bases para ampliar a produção local. A utilização dessas unidades permitiria aproveitar estruturas já existentes, aproximar a fabricação dos consumidores e reduzir a exposição a barreiras comerciais.

Dependência de baterias

VW ID.Polo
VW ID.Polo
Imagem: Divulgação

A dependência europeia também se estende à cadeia de suprimentos. Aproximadamente 80% da capacidade de refino de materiais catódicos e processamento de compostos para baterias está concentrada fora da Europa, segundo os números apresentados no material. Construir fábricas de baterias no continente, portanto, não garante autonomia: também é necessário desenvolver fornecedores e ampliar o acesso aos componentes essenciais.

O domínio da tecnologia de baterias tem impacto direto sobre a competitividade dos veículos elétricos. Além de influenciar a autonomia, o peso e o tempo de recarga, a bateria representa uma parcela importante do valor do automóvel.

A capacidade de desenvolver e produzir esse componente em escala ajuda fabricantes como a BYD a integrar diferentes etapas da cadeia industrial. Já as empresas europeias precisam ampliar parcerias e investimentos para diminuir dependências externas e garantir fornecimento estável de materiais e componentes.

Para reduzir essa desvantagem, a AlixPartners recomenda encurtar os ciclos de desenvolvimento para cerca de dois anos, ampliar o uso de inteligência artificial nos processos industriais, fortalecer parcerias tecnológicas e aproveitar melhor as instalações existentes. 
A inteligência artificial pode contribuir para simulações de engenharia, identificação de falhas, manutenção preventiva e otimização das linhas de montagem, reduzindo retrabalho e melhorando a produtividade.

A disputa entre o BYD Dolphin e o Volkswagen ID. Polo simboliza um desafio mais amplo para a indústria europeia. Não basta oferecer autonomia competitiva e bons equipamentos: é preciso desenvolver veículos rapidamente, modernizar a produção e torná-los acessíveis.

Tarifas de importação podem encarecer os modelos chineses, mas não eliminam as diferenças estruturais apontadas pela consultoria. Para recuperar competitividade, as montadoras europeias precisarão reformular seus processos industriais e tecnológicos sem comprometer ainda mais sua capacidade de investimento.

Dolphin híbrido vem aí

BYD Dolphin G DM-i
BYD Dolphin G DM-i
Imagem: Divulgação

A BYD confirma que o Dolphin G híbrido chegará ao Brasil em 2027, de acordo com  Alexandre Baldy, vice-presidente sênior da marca. O carro vai chegar primeiro como importado, mas há planos de fabricá-lo em Camaçari (BA), com motor a combustão flex que funciona com outro elétrico como parte do sistema plug-in. Será um dos modelos mais em conta da marca no país.

Por isso, o BYD Dolphin híbrido G plug-in terá bom volume de produção no Brasil, mas ainda não se sabe partir de quando o hatch será nacionalizado. A chegada do novo modelo deverá aumentar ainda mais a participação da marca chinesa no mercado brasileiro.

Em sua essência, o Dolphin G DM-i  funciona a maior parte do tempo como um veículo elétrico. Um motor a gasolina entra em ação principalmente como gerador para manter a bateria carregada.

Fabricado na Hungria, o Dolphin G DM-i não economiza em equipamentos de série para atingir seu preço bastante atrativo. Mesmo a versão Active vem equipada com rodas de liga leve, faróis de LED, ar-condicionado automático, sistema de navegação, câmera de ré e sistema multimídia de 10,1 polegadas.

Equipado com um motor elétrico de tração dianteira, o BYD tem duas opções de bateria. A versão de menor capacidade possui 7,4 quilowatts-hora, enquanto a versão de longo alcance promete 18,3 quilowatts-hora. A marca chinesa anuncia 174 e 209 cavalos de potência, respectivamente, além de uma autonomia elétrica.

Em termos de autonomia total, os números são: 1.019 e 1.040 quilômetros. A versão Active pode ser recarregada utilizando um carregador de 3,3 kW, em vez dos 6,6 quilowatts dos modelos Boost e versões superiores. O carregamento rápido também está disponível, oferecendo até 39 quilowatts em condições ideais.

Com todas essas qualidades, imagine o efeito que causará a chegada do Dolphin híbrido flex quando chegar ao mercado brasileiro por um preço que deverá ser tão competitivo quando de um Polo apenas a combustão produzido pela Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP), onde a marca alemã prepara a linha de montagem para modelos eletrificados com maior margem de lucro, ou seja, utilitários esportivos tanto médios quanto compactos. 

Carlos Guimarães

Jornalista há mais de 20 anos, já acelerou várias novidades, mas não dispensa seu clássico no final de semana