Gurgel Motomachine é raridade que combina carro e moto; veja preço

Clássico nacional teve apenas 177 unidades fabricadas e portas transparentes entre os detalhes
Gurgel Motomachine 1992

Gurgel Motomachine 1992 | Imagem: Reprodução/Lart

Derivado do Gurgel BR-800, primeiro carro urbano 100% nacional, o Motomachine foi uma das últimas criações da fábrica fundada pelo engenheiro João Augusto do Amaral Gurgel, em 1969, em Rio Claro (SP) e que deixou de fabricar automíveis em 1996. O pequeno e curioso carrinho teve apenas 177 unidades fabricadas, todas com uma série de curiosidades, entre as quais as portas transparentes.

VEJA TAMBÉM:

Então, é preciso ter cuidado com o que vestir ao andar no Gurgel Motomachine, raridade lançada em 1992, ano do exemplar que está à venda na loja de clássicos Lart, em São Paulo, por R$ 105 mil.  O modelo ficou 10 anos com o atual proprietário e passou por uma restauração completa.

Receba notícias quentes sobre carros em seu WhatsApp! Clique no link e siga o Canal do AUTOO.

Portas de acrílico transparente

Gurgel Motomachine 1992
Gurgel Motomachine 1992 com parte da lateral transparente que deixa à mostra o que há no interior
Imagem: Reprodução/Lart

O motor do Gurgel Motomachine é o mesmo do BR-800. Engenhoso, tem apenas dois cilindros opostos de quatro tempos, 792 centímetros cúbicos e arrefecido a água. Foi fundido em liga de alumínio e silício e rende 33 cv a 5.000 rpm, sem distribuir, já que vem com ignição  controlada por um microprocessador. 

A tração é traseira, com diferencial do Chevrolet Chevette, vai durar a vida toda já que o torque do pequeno motor 0.8 (6,6 kgfm) é bem menor que o do modelo da GM, com o dobro da cilindrada. Além disso, o câmbio é de quatro marchas, com escalonamento suficiente para atingir 115 km/h, de acordo com a fabricante. 

Mas, para ir de 0 a 100 km/h é preciso bastante paciência, com relações de marchas bem longas para favorecer a economia de combustível (13 km/l de gasolina na cidade e 15 km/l na estrada, conforme o Inmetro). Ainda de acordo com dados de fábrica, a aceleração é feita em quase eternos 35 segundos.

Quer mais uma curiosidde do Motomachine? O comprimento é um pouco maior que de um Smart ForTwo da primeira geração: 2,85 ante 2,70 m. Mas o Gurgel é mais estreito, com 1,45 m ante 1,56 m do microcarro alemão. O tanque do modelo nacional tem 40 litros, o que dá uma boa autonomia teórica de 500 km na cidade e de 600 km, caso o juízo permita pegar uma estrada.


Gurgel Motomachine 1992
Gurgel Motomachine 1992 é bem simples e original por dentro, com apenas o essencial
Imagem: Reprodução/Lart

Bom também é que a carroceria é de plástico FRP com alta resistência a impactos e livre de corrosão. Outros dois pontos interessantes é que o para-brisa é removível e o carrinho vem com duas capotas, uma delas de lona. 

Gurgel Motomachine é fabricado sobre um chassi de aço muito bem projetado e seguro que tinha um baixo coeficiente de torção. No painel, ao centro, vai o velocímetro graduado a 140/h. A esquerda deste marcador do tanque de gasolina (40 litros) e luzes espia.  Mais para a esquerda, no painel, fica um relógio analógico, próximo do rádio. 

Aliás, a Gurgel instalou alto-falantes da alemã Blaupunkt nas pequenas portas, onde também vão as maçanetas vindas da Volkswagen, mas mesas usadas na linha do Fusca. E os bancos têm revestuimento vermelho, combinado com a cor do carro para apenas dois ocupantes, que pode dar a sensação de se estar em uma moto, principalmente com o para-brisa removido. 

Sonho do carro 100% nacional

O  engenheiro João Augusto do Amaral Gurgel, fundador da marca com os primeiros modelos fabricados
O engenheiro João Augusto do Amaral Gurgel, fundador da marca, com os primeiros modelos fabricados
Imagem: Divulgação

A Gurgel surgiu em 1969 e o primeiro carro produzido foi o Ipanema, um bugue fora de estrada montado com carroceria de plástico e fibra de vidro, capota de lona e motorização Volkswagen. No início dos anos 70 foi lançado o Xavante XT, onde mais adiante passou a ser chamado de X-12, e, por fim Tocantins, em 1988. 

Com a expansão da empresa, em 1975 a fabrica da Gurgel foi transferida para Rio Claro (SP), No ano de 1976 chegava o Gurgel X12-TR, com teto rígido, chassi de Plasteel e garantia de 100 mil quilômetros rodados. Em 1979, a Gurgel levou toda sua linha de veículos para ser apresentada no Salão do Automóvel de Genebra (Suíça). Neste mesmo ano foi feito o lançamento dos modelos X-15 (picape cabine dupla) e X-20 (picape cabine simples).

Por seu um grande visionário, João Amaral Gurgel já planejava fabricar veículos elétricos naquela época, e em 1980 inaugurou uma nova unidade para produção de veículos com propulsão elétrica, iniciando-se pelo modelo Itaipú E150 em homenagem à hidrelétrica na divisa do Brasil com o Paraguai. 

Gurgel XT
Gurgel XT dos anos 70, que passopu a se chamar X12 e, por fim, Tocantins, a partir de 1988
 Imagem: Divulgação

Foi em 1984 que a Gurgel lançou o seu maior e mais tecnológico utilitário: o Carajás. Este foi um veículo revolucionário para a época, pois tinha o motor e embreagem na frente e a caixa de marchas e diferencial juntos na parte traseira do veículo onde estava a sua tração, combinado com motor AP 1.8 do Santana, refrigerado a água. Posteriormente ganhou uma versão com motor diesel da Kombi. 

Em 7 de setembro de 1987 foi lançado o projeto mais ousado da Gurgel, que seria o primeiro carro genuinamente brasileiro produzido com peças 100% nacionais e que também viria ser o mais barato de todos: o CENA (sigla de Carro Econômico Nacional). Dele, acabou surgindo o BR-800, fabricado de 1988 a 1991. 

Entretanto, uma redução de IPI proposta pelo governo Collor em 1991 para veículos  com motorização abaixo de 1 litro de cilindrada fez com que as montadoras estrangeiras presentes no país introduzissem no mercado seus veículos com valores mais baixos que o do Gurgel BR-800, o que fez a empresa começar a perder espaço entre os concorrentes. Para piorar a situação, o governo ainda liberou a importação de automóveis estrangeiros, permitindo a entrada de modelos mais competitivos. 

A produção dos automóveis da Gurgel terminou em 1996, mas hoje o nome da empresa está ligada à produção de empinhadeiras, tanto elétricas quanto movidas a combustão já que em 2004 empresário paulista Paulo Emílio Freire Lemos adquiriu os direitos da marca junto ao INPI. 

Parte do que havia restado da linha de montagem da Gurgel no início dos anos 90, em Rio Claro (SP)
Parte do que havia restado da linha de montagem da Gurgel no início dos anos 90, em Rio Claro (SP)
Imagem: Divulgação

 

 

 

Carlos Guimarães

Jornalista há mais de 20 anos, já acelerou várias novidades, mas não dispensa seu clássico no final de semana