O que o fim da produção do Cruze e do Taurus nos EUA pode significar

Automóveis da Chevrolet e Ford saem de cena para abrir espaço para SUVs, mas no fundo simbolizam o fracasso das duas marcas em criar modelos globais
O último Cruze sai da linha de montagem nos EUA: americanos não compram carros nativos

O último Cruze sai da linha de montagem nos EUA: americanos não compram carros nativos | Imagem: Reprodução/Redes sociais

Após os anúncios de que deixarão de produzir automóveis nos EUA, Ford e Chevrolet começaram a fechar as linhas de montagens de seus modelos no país. Nesta semana dois deles tiveram seus últimos exemplares produzidos, o Taurus e o Cruze.

O argumento das duas montadoras americanas é o mesmo: o consumidor quer SUVs e picapes e não automóveis por isso eles darão lugar a novos jipões com visual off-road, mas uso urbano. Parece fazer sentido não fosse o fato de que a procura por sedans ainda seja bastante alta nos EUA.

A Toyota, por exemplo, emplacou nada menos que 343 mil unidades do Camry em 2018, automóvel mais vendido no país. Não é um resultado isolado: os sete primeiros colocados no ranking são sedans de marcas japonesas. O primeiro “nativo” é o Ford Fusion e que vendeu a metade do Toyota no ano passado.

Aliás, o Cruze nem pode ser considerado um fracasso de vendas afinal de contas mais de 142 mil carros foram vendidos em 2018 e mesmo o velho Taurus, um veículo que já foi líder de vendas há 30 anos, teve 40 mil interessados em levá-lo para casa.

O problema é que a participação de automóveis nas vendas da Chevrolet e Ford é pequena comparada a da Toyota. Enquanto na marca japonesa os veículos de passeio representam 40% dos emplacamentos na Chevrolet eles respondem por cerca de 23% e na Ford menos ainda, apenas 20%.

As maiores montadoras dos EUA, por outro lado, dependem muito do típico veículo americano, a picape. Para a Chevrolet, modelos como Silverado e Colorado significam mais de um terço das vendas enquanto na Ford o peso da Série F é maior: mais de 40%.

Já entre os SUVs, a Toyota leva vantagem tendo emplacado quase 900 mil veículos no ano passado contra 800 mil da Ford e 730 mil da Chevrolet – a GM tem participação maior quando incluídas outras marcas como GMC e Buick.

 

 

 

O Taurus dá adeus: sedan famoso da Ford vendia bem menos que rivais asiáticos nos EUA
O Taurus dá adeus: sedan famoso da Ford vendia bem menos que rivais asiáticos nos EUA
Imagem: Reprodução/Redes sociais

 

 

 

Presença irregular

Em outras palavras, o fracasso em vender automóveis nos EUA tem muito menos a ver com uma mudança de costume do consumidor norte-americano e sim com uma certa rejeição interna a essas duas marcas. Mesmo para um típico habitante local não há porque comprar um sedan de Ford ou GM se os modelos japoneses e coreanos são melhores – ao menos é o que indicam suas vendas mais robustas.

O problema é agravado pelo fato de que nem mesmo no segmento onde imperam a situação seja tranquila. Embora Honda e Nissan não tenham conseguido uma participação significativa entre as picapes, a Toyota já é um incômodo para as marcas americanas.

A picape Tacoma, rival da Colorado, conseguiu a proeza de vender mais de 245 mil unidades em 2018, muito acima da Chevrolet, que mesmo crescendo obteve 134 mil emplacamentos. É um resultado alarmante num território em que nunca houve uma real ameaça.

 

 

 

Toyota Tacoma 2018
Toyota Tacoma 2018
Imagem: Divulgação

 

 

 

A situação no mercado de veículos nos EUA só faz ressaltar uma dura realidade tanto para Ford quanto para Chevrolet. Elas falharam até aqui em se tornar marcas com presença mundial e, sobretudo, em viabilizar modelos globais.

Embora estejam em quase todos os mercados, as duas têm participações irregulares sobretudo em duas regiões extremamente importantes, a Europa e a China.

No Velho Continente, a Ford ainda goza de um bom prestígio e mantém modelos como o Fiesta e o Focus entre os primeiros colocados no mercado europeu. Em 2018 ela só vendeu menos que Volkswagen e Renault, ficando à frente da Peugeot.

Nesse sentido, a Toyota também enfrenta dificuldades para enfrentar as marcas europeias, mas ainda assim conseguiu emplacar mais de 700 mil unidades no ano passado, pouco à frente da Fiat.

Já a General Motors, desde a venda da Opel, praticamente desapareceu da região. Sua marca mais importante, a Chevrolet, teve pouco mais de 2,3 mil unidades vendidas no ano passado, um número insignificante.

Na China, no entanto, fica clara a situação crítica tanto de Ford quanto de Chevrolet. Se o Corolla figurou como 5º modelo mais vendido no país em 2018, o melhor Chevrolet foi o Cavalier, um sedan local que foi 16º enquanto o Escort chinês, em 43º lugar, foi o representante mais bem colocado da Ford. Em suma, nenhum dos dois são produtos globais, situação semelhante a do Onix no Brasil.

 

 

 

Chevrolet Cavalier 2019
Chevrolet Cavalier 2019
Imagem: Divulgação

 

 

 

Modelos globais falharam

É evidente que faltam às duas montadoras alguns modelos verdadeiramente globais. A Ford, inclusive, tentou implementar uma linha de produtos padronizada para ser vendida na maior parte dos países mas o resultado decepcionou. Modelos como o Fiesta, Focus e Ranger deveriam ser parecidos em vários lugares e com isso o custo de produção poderia ser diluído melhorando as margens, porém, seus desempenhos de vendas são bastante irregulares. Veja o caso dos dois primeiros que estão deixando de serem vendidos no Brasil.

No caso da Chevrolet, a situação é ainda mais dramática. A montadora abandonou sua operação europeia, muito cara e específica para esse mercado, para investir em modelos mais baratos e desenhados para serem bem recebidos em continentes diferentes como Ásia, América do Sul e África. Daí nasceu justamente o Cruze, um compacto (médio no Brasil) gestado na Coreia do Sul e que ganhou o mundo e ousou entrar no mercado norte-americano. No entanto, suas vendas não foram suficientes para convencer a matriz a mantê-lo em linha nos EUA, nem viabilizá-lo na Europa ou China.

Mais uma vez, a Toyota serve como contraponto. O Corolla, automóvel mais vendido do mundo, conseguiu esse feito ao ter vendas respeitáveis em diversos países, sejam eles ricos ou mais pobres.

Isso quer dizer que falta um bom produto como o sedan da Toyota para Ford e Chevrolet? Certamente não. O Corolla, embora um bom carro, se beneficia muito mais de uma imagem de marca construída com paciência oriental por décadas e sobretudo um pós-venda atencioso para se tornar uma compra segura. É nesse sentido que não só Ford e Chevrolet erram como tantas outras marcas: conquistar a confiança do consumidor. Esteja ele em Liechtenstein, um dos menores países do mundo, ou em sua terra natal, os Estados Unidos.

 

 

 

Ford Fiesta 2018
O Fiesta é um dos Ford mais vendidos da Europa, mas não repetiu feito nas Américas
Imagem: Divulgação

 

 

 

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