Land Rover agora tem seu próprio SUV elétrico

Range Rover Electric estreou no Reino Unido, enquanto a JLR tenta se recuperar dos efeitos de ataque cibernético, queda nas vendas e a arriscada reinvenção da Jaguar
Land Rover Range Rover Electric 2027

Land Rover Range Rover Electric 2027 | Imagem: JLR

Recuperadas de uma gestão errática da Ford, as marcas Land Rover e Jaguar gozaram de um período de prestígio nas mãos do grupo indiano Tata, mas o que parecia um filme de romance virou um drama, com seguidos problemas nos últimos anos. Agora, a JLR, conglomerado que lidera ambas as marcas, tenta sair de um período complicado com um lançamento, o primeiro SUV elétrico da Land Rover.

O Range Rover Electric finalmente chegou ao mercado britânico depois de uma estreia adiada. A versão a bateria do modelo mais tradicional e luxuoso da marca começa a ser vendida por £ 154.070 (mais de R$ 1 milhão) justamente quando a Jaguar Land Rover tenta reorganizar seus negócios após uma sequência de problemas que afetou produção, vendas e resultados financeiros.

Produzido em Solihull, na Inglaterra, ao lado das versões com motores a combustão e híbridas, o Range Rover Electric usa a mesma arquitetura MLA do modelo convencional. Em vez de criar um automóvel específico para a eletrificação, a JLR adaptou seu SUV mais sofisticado para receber bateria e dois motores elétricos.

São dois propulsores de 260 kW, um em cada eixo, que entregam juntos 550 cv e 850 Nm (86,7 kgfm). A aceleração de 0 a 96 km/h leva 4,3 segundos.

Land Rover Range Rover Electric 2027
Land Rover Range Rover Electric 2027 Imagem: JLR

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A bateria tem 118,5 kWh de capacidade útil e trabalha com arquitetura elétrica de 800 volts. A autonomia chega a 598 km pelo ciclo WLTP. Em um carregador rápido de 350 kW, a JLR informa que é possível passar de 10% a 80% da carga em cerca de 22 minutos.

A eletrificação também não eliminou características tradicionalmente associadas ao Range Rover. A fabricante declara capacidade para atravessar trechos alagados com até 900 mm de profundidade e desenvolveu um gerenciamento eletrônico da tração que pode responder em 50 milissegundos. A bateria instalada sob o assoalho ainda reduz o centro de gravidade, enquanto a suspensão pneumática foi adaptada ao maior peso do modelo elétrico.

Land Rover Range Rover Electric 2027
Land Rover Range Rover Electric 2027 Imagem: JLR

O interesse pelo carro começou bem antes da abertura das vendas. No relatório anual encerrado em março de 2025, a JLR dizia ter recebido quase 77 mil manifestações de interesse pelo Range Rover Electric.

Sua chegada às lojas, porém, acontece em uma situação bastante diferente daquela vivida pela companhia pouco mais de um ano atrás.

De recuperação histórica a uma sequência de problemas

A indiana Tata Motors comprou Jaguar e Land Rover da Ford em 2008 por US$ 2,3 bilhões. Depois de anos difíceis, sobretudo a antiga Land Rover encontrou uma fórmula que funcionou ao ampliar sua oferta de SUVs de alto valor.

Range Rover tornou-se uma família, com produtos como Evoque e Sport, enquanto o Defender foi transformado de um utilitário espartano em um SUV sofisticado e muito mais caro. A estratégia permitiu à JLR concentrar uma parcela crescente das vendas nos modelos de maior margem.

Plataforma do Range Rover Electric
Plataforma do Range Rover Electric Imagem: JLR

No exercício encerrado em março de 2025, os resultados pareciam confirmar que a longa reorganização havia dado resultado. A companhia vendeu 428.854 veículos no varejo e registrou lucro antes de impostos e itens excepcionais de £ 2,5 bilhões.

A empresa também terminou o período com £ 278 milhões a mais em caixa do que em dívidas, alcançando uma posição financeira líquida positiva pela primeira vez em sete anos.

O exercício seguinte foi quase o oposto. As vendas no varejo caíram 17,8%, para 352.300 veículos, enquanto o atacado recuou 23,2%, para 307.900 unidades. A receita diminuiu 20,9%, para £ 22,9 bilhões, e o lucro antes de impostos e itens excepcionais despencou de £ 2,5 bilhões para apenas £ 14 milhões.

Não houve uma única causa para essa deterioração. A JLR enfrentou vendas mais fracas na China, mudanças tarifárias nos Estados Unidos e a retirada planejada dos antigos modelos Jaguar antes da chegada de seus sucessores. No meio dessa transição ocorreu ainda um ataque cibernético que paralisou as fábricas da empresa.

Fábrica da Jaguar Land Rover no Reino Unido
Fábrica da Jaguar Land Rover no Reino Unido Imagem: JLR

Quando um ataque hacker para uma fábrica

O ataque ocorreu no início de setembro de 2025 e levou a JLR a desligar seus sistemas de tecnologia da informação como medida de contenção. A consequência foi a interrupção da produção mundial durante várias semanas, seguida por uma retomada gradual a partir de outubro.

Uma fábrica moderna depende dos sistemas digitais para muito mais do que atividades administrativas. Eles controlam o sequenciamento dos veículos, identificam a configuração de cada unidade, coordenam quais componentes devem chegar a cada ponto da linha, mantêm a rastreabilidade das peças e conectam a montadora a uma extensa cadeia de fornecedores.

Sem conseguir garantir a integridade dessas informações, a JLR não tinha condições de simplesmente continuar montando automóveis. O problema atingiu também fornecedores que trabalham de acordo com os programas de produção da companhia e dependem de entregas sincronizadas com suas fábricas.

O efeito apareceu de maneira particularmente forte no trimestre encerrado em dezembro de 2025. O atacado caiu 43,3% na comparação anual, para 59.200 veículos, e a companhia registrou prejuízo antes de impostos e itens excepcionais de £ 310 milhões.

A situação melhorou conforme as fábricas retomaram o ritmo. No último trimestre do exercício, o atacado aumentou 61,1% em relação aos três meses anteriores, para 95.300 unidades, e a JLR voltou a registrar lucro antes de impostos e itens excepcionais de £ 458 milhões.

Fábrica da Land Rover em Itatiaia
Fábrica da Land Rover em Itatiaia Imagem: Divulgação

Isso não significa, porém, que a companhia já esteja em recuperação. A normalização da produção encerrou o problema mais imediato, mas ficaram os efeitos financeiros e comerciais daquela sequência de acontecimentos.

Agora a JLR começa a tentar sair dessa situação com uma estrutura menos dependente de grandes volumes. A companhia anunciou um programa para economizar cerca de £ 1,7 bilhão em dois anos, incluindo redução de despesas fixas e custos relacionados a materiais e garantia. Uma das metas é reduzir para aproximadamente 300 mil veículos anuais o volume necessário para atingir o equilíbrio financeiro.

Segundo informações publicadas pela BBC neste sábado, a reorganização poderá envolver cerca de 4.000 empregos no Reino Unido ao longo de dois anos. A JLR emprega aproximadamente 34 mil pessoas diretamente no país.

Land Rover funcionou, Jaguar nem tanto

A situação atual também expõe como as duas marcas compradas da Ford seguiram trajetórias bastante diferentes sob o controle da Tata.

Enquanto os SUVs da Land Rover se multiplicaram e os modelos mais caros passaram a sustentar boa parte dos resultados da JLR, a Jaguar tentou aumentar sua presença enfrentando diretamente as marcas premium alemãs.

Vieram produtos como XE, XF, F-Pace e E-Pace, além do elétrico I-Pace. O XE foi concebido para enfrentar modelos como BMW Série 3 e Mercedes-Benz Classe C, enquanto o F-Pace levou a Jaguar ao segmento de SUVs que impulsionava a Land Rover.

A estratégia não produziu para a Jaguar algo semelhante ao sucesso alcançado por Range Rover e Defender. A diferença hoje é enorme: Range Rover, Range Rover Sport e Defender responderam por 76,5% dos veículos vendidos pela JLR no atacado no exercício 2025/26.

Jaguar Type 00
Jaguar Type 00 Imagem: Divulgação

A companhia decidiu então fazer algo incomum. Em vez de substituir normalmente os Jaguar existentes, encerrou sua produção e praticamente interrompeu a oferta da marca enquanto prepara uma reinvenção completa.

O conceito Type 00 mostrou a nova identidade visual escolhida para a Jaguar. O primeiro automóvel de produção dessa fase, conhecido durante o desenvolvimento como Type 01, será um GT elétrico de quatro portas e terá sua apresentação mundial ainda neste mês de setembro. A Jaguar ainda não informou quando começarão as entregas aos clientes.

A proposta é abandonar a tentativa de competir em volume com BMW, Mercedes-Benz e Audi e colocar a Jaguar em uma faixa mais alta de preço, com uma linha totalmente elétrica e muito mais exclusiva.

É uma aposta arriscada porque a JLR abriu mão antecipadamente do volume proporcionado pela antiga linha sem ainda contar com os produtos que deverão substituí-la. A própria empresa cita o encerramento planejado dos Jaguar anteriores como um dos motivos para a redução recente de suas vendas.

Ao mesmo tempo, Range Rover segue por um caminho menos radical. O novo Electric não elimina imediatamente as versões a combustão e híbridas, permitindo à JLR acompanhar a velocidade de adoção dos elétricos sem depender exclusivamente deles.

Brasil chegou a ter montagem local

O Brasil oferece outro retrato da mudança vivida pela JLR. A Land Rover chegou a conquistar uma presença significativa entre as marcas premium e, em 2016, a companhia inaugurou uma unidade industrial em Itatiaia (RJ), com investimento anunciado de R$ 750 milhões.

A operação, no entanto, estava muito distante da complexidade de grandes fábricas brasileiras que estampam, soldam, pintam e montam os automóveis praticamente desde a chapa de aço.

Itatiaia começou recebendo da Inglaterra as carrocerias do Range Rover Evoque e Discovery Sport já soldadas e pintadas. No Brasil era realizada essencialmente a montagem final dos veículos. A JLR chegou a anunciar capacidade instalada de 24 mil unidades anuais, mas o volume efetivamente produzido permaneceu muito abaixo desse número.

Land Rover Range Rover Electric 2027
Land Rover Range Rover Electric 2027 Imagem: JLR

Ainda assim, a existência da unidade mostrava a importância que a Land Rover havia alcançado no mercado brasileiro naquele momento. Evoque e Discovery Sport eram justamente dois dos produtos responsáveis pela expansão da marca para faixas inferiores às ocupadas pelos grandes Range Rover.

Uma década depois, o cenário é bastante diferente. Os dois modelos envelheceram e perderam volume, enquanto a estratégia mundial da JLR passou a depender cada vez mais dos produtos mais caros de Range Rover e Defender. Em 2025, foram emplacados no Brasil 425 Discovery Sport e 332 Range Rover Evoque.

A operação industrial de Itatiaia acabou perdendo boa parte da razão econômica que havia justificado sua criação. A produção local foi interrompida em 2026, enquanto surgiram informações sobre negociações envolvendo o futuro das instalações.

A Jaguar, por sua vez, praticamente desapareceu do mercado enquanto aguarda sua nova geração de produtos. A situação brasileira acaba reproduzindo, em escala muito menor, parte da transformação mundial da companhia: os produtos que buscaram ampliar volume perderam espaço, enquanto os SUVs mais caros passaram a ter peso proporcionalmente maior.

Novo teste para a estratégia

O Range Rover Electric chega, portanto, não como uma resposta improvisada aos problemas recentes, mas como um projeto iniciado muito antes deles e que agora estreia justamente quando a JLR começa a tentar se reorganizar.

A companhia continua tendo ativos importantes. Range Rover e Defender permanecem responsáveis pela maior parte de suas vendas e foram fundamentais para a recuperação financeira alcançada antes dos acontecimentos de 2025. Ao mesmo tempo, a empresa precisa absorver os efeitos do ataque cibernético, lidar com mercados importantes mais difíceis, reduzir custos e descobrir se a reconstrução da Jaguar encontrará compradores.

O primeiro Range Rover elétrico acrescenta mais uma variável a essa equação. Em vez de abandonar a fórmula que ajudou a recuperar a JLR, a fabricante está tentando transportá-la para a eletrificação: menos dependência de volume e maior concentração em veículos caros. O resultado dessa estratégia ainda está para ser conhecido.

Ricardo Meier

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