Países ricos têm carros muito mais seguros. Por que isso não é um direito de todos?

Teste de colisão ''carro a carro'' evidencia uma triste realidade para mercados em desenvolvimento
Colisão carro a carro entre o Hyundai Accent vendido nos EUA e o Grand i10 destinado ao México

Colisão carro a carro entre o Hyundai Accent vendido nos EUA e o Grand i10 destinado ao México | Imagem: Divulgação/Latin NCAP

Em preparação para a primeira Reunião de Alto Nível sobre Segurança Viária na Assembléia Geral das Nações Unidas, o Global NCAP, entidade que avalia o nível de segurança dos automóveis comercializados ao redor do mundo, divulgou nesta terça-feira (28) um interessante teste de colisão no formato “carro a carro”. 

Para exemplificar o que chama de “duplo padrão em segurança veicular”, o Global NCAP colidiu um Hyundai Grand i10, comercializado no México importado da Índia, com um Hyundai Accent, modelo de proposta equivalente vendido nos EUA. Os produtos em questão são os sedãs mais baratos da marca nos respectivos países. 

Enquanto o Grand i10 ofertado no México não traz os controles de tração e estabilidade e conta apenas com o airbag duplo frontal, o Accent norte-americano chega às concessionárias com ESP, 6 airbags e uma estrutura muito mais estável em relação ao Grand i10, como é possível conferir no vídeo mais abaixo. 

O "duplo padrão em segurança veicular" é reforçado pelo fato de que o Hyundai Accent que chega aos EUA é fabricado no México, portanto uma enorme incoerência. Logo, está longe de ser um impedimento técnico produzir carros mais seguros em países emergentes.   

Segundo o Global NCAP, “o Grand i10 apresentou uma estrutura instável e uma proteção pobre ao motorista, com uma alta probabilidade de ferimentos que ameaçam a vida. O Hyundai vendido no México teria alcançado uma classificação de zero estrela nos testes do Latin NCAP”. 

As discrepâncias entre os dois modelos, nas palavras de David Ward, presidente da Towards Zero Foundation e do Global NCAP, evidenciam a necessidade de que seja estabelecido um padrão único mundial para os itens de segurança e integridade estrutural que devem figurar nos veículos. O pleito de diversas instituições é que tal medida vigore a partir de 2030.  

Com isso, não apenas os países ricos e desenvolvidos teriam um padrão superior de segurança automotiva. Essa evolução, acrescenta Ward, também passa pela necessidade dos países em estabelecer normas de segurança mais rígidas para a homologação de veículos. 

"É muito decepcionante ver uma lacuna tão grande na segurança dos veículos entre o México e os Estados Unidos. Uma das principais razões tem sido o ‘lobby’ incessante da Associação Mexicana da Indústria Automotiva para atrasar a implementação dos padrões mínimos de segurança veicular da ONU. 

Isto aconteceu primeiro para testes de colisão frontal, colisão lateral e para controle eletrônico de estabilidade e agora novamente para proteção de pedestres. O duplo padrão em segurança veicular é, muitas vezes, uma moeda de troca para as associações da indústria automotiva. 

Por causa disso, a Reunião de Alto Nível da ONU em Nova York esta semana deve enviar uma mensagem clara para a indústria automotiva para parar com suas táticas dilatórias e implementar os padrões de segurança veicular mais importantes em todo o mundo”, declarou David Ward em comunicado divulgado no Brasil pelo Latin NCAP. 

Este teste é uma chamada de atenção para os consumidores, reguladores e fabricantes de veículos. Todos os consumidores, não importa onde morem, têm o direito de receber o mesmo nível de segurança em seus veículos. A lacuna de segurança transfronteiriça não deve mais existir. Apelamos aos fabricantes para que parem com as estratégias de duplo padrão em todo o mundo”, completa Alejandro Furas, Secretário Geral do Latin NCAP.