Projeto de lei que proíbe carros chineses nos EUA pode atingir até Mercedes e Volvo

Montadoras pressionam Congresso para tornar bloqueio permanente, mas participação chinesa em marcas europeias virou obstáculo
Mercedes-Benz tem entre seus sócios a BAIC e o fundador da Geely

Mercedes-Benz tem entre seus sócios a BAIC e o fundador da Geely | Imagem: Divulgação

As principais fabricantes de automóveis dos Estados Unidos querem impedir definitivamente a entrada de carros chineses no país, mas a barreira que está sendo discutida no Congresso pode acabar atingindo marcas bem conhecidas do próprio mercado americano. Mercedes-Benz e Volvo estão entre as empresas que podem esbarrar nas regras de um projeto de lei que pretende transformar em permanente o bloqueio aos veículos chineses.

A pressão aumentou nesta semana. A Alliance for Automotive Innovation, uma espécie de Anfavea dos EUA, pediu aos parlamentares que aprovem o Connected Vehicle Security Act of 2026 quando o Congresso retomar os trabalhos após as eleições legislativas. A entidade representa praticamente toda a grande indústria instalada no país, incluindo General Motors, Ford, Toyota, Volkswagen, Hyundai, Honda e Stellantis.

O projeto tem apoio de republicanos e democratas e já passou por unanimidade pela Comissão de Comércio do Senado. Apresentado pelo republicano Bernie Moreno e pela democrata Elissa Slotkin, ele ainda precisa passar pelo plenário e pela Câmara antes de seguir para sanção presidencial.

Na prática, carros chineses já estão quase totalmente impedidos de entrar no mercado americano. Regras estabelecidas durante o governo Joe Biden restringem, a partir do ano-modelo 2027, automóveis que utilizem determinados sistemas de conectividade e softwares ligados à China ou à Rússia. O novo texto pretende transformar essas restrições em lei e dificultar que uma futura administração simplesmente reverta a política.

Modelo da Polestar, que pertence à Geely
Modelo da Polestar, que pertence à Geely Imagem: Divulgação

Limite de 15% cria problema

Um dos pontos mais controversos está na definição de uma empresa ligada a um país considerado adversário. O texto estabelece um limite de 15% de participação ou controle, o que criou um efeito colateral: empresas europeias podem ultrapassar essa barreira por causa de seus acionistas chineses.

É o caso da Mercedes-Benz. A BAIC e o empresário Li Shufu, fundador da Geely, possuem juntos quase 20% da fabricante alemã. Pela aplicação literal do limite previsto, a Mercedes poderia ser enquadrada pela restrição. A situação já provocou divergências dentro do próprio Senado.

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A Volvo representa um caso ainda mais evidente. A fabricante sueca é controlada pela chinesa Geely e, portanto, também pode ser alcançada pelas regras. A Polestar, igualmente ligada ao grupo chinês, já afirmou que as restrições atualmente existentes a impedem de vender veículos ano-modelo 2027 nos Estados Unidos.

Os autores dizem que não pretendem expulsar Mercedes ou Volvo do país. Moreno chegou a afirmar que ninguém deseja proibir os carros da marca alemã e apontou a possibilidade de adequação ou de uma autorização do Departamento de Comércio. O senador Ted Cruz, por sua vez, defendeu mudanças no critério de 15%, considerando que uma porcentagem fixa pode alcançar empresas que não representam o risco que a legislação pretende combater.

Volvo EX30 2026
Volvo EX30 2026 Imagem: Divulgação

O problema é que participações acionárias não são permanentes. Mesmo que o Congresso encontre agora uma fórmula para preservar determinadas fabricantes, uma mudança futura no controle ou um aumento da participação de investidores chineses pode alterar novamente seu enquadramento.

Segurança nacional pesa na discussão

A barreira não é defendida apenas como proteção à indústria automobilística americana. Um dos principais argumentos é a segurança nacional.

Carros modernos possuem conexão celular, Wi-Fi, Bluetooth, sistemas de localização, câmeras e uma quantidade crescente de software. Com isso, podem coletar informações sobre localização e comportamento dos usuários e, em alguns casos, receber comandos remotamente.

O relatório do Senado que acompanha o projeto cita riscos de vigilância, espionagem, ataques cibernéticos e até interferência em infraestrutura crítica caso sistemas de conectividade ou condução automatizada estejam sob influência de países considerados adversários. Além da China, a legislação inclui Rússia, Irã e Coreia do Norte.

Por isso, as restrições não param no país onde o carro é montado. O texto alcança veículos desenvolvidos ou fornecidos a partir desses países, além de software e componentes ligados à conectividade. A partir de 2030, as limitações também se estenderiam a determinados hardwares usados nesses sistemas.

BYD Dolphin 2026
BYD Dolphin 2026 Imagem: Divulgação

Proteção também reduz concorrência

Há, no entanto, outro lado da discussão. Manter os fabricantes chineses completamente afastados elimina uma fonte de concorrência justamente quando os carros novos ficaram muito caros nos Estados Unidos. O preço médio de um veículo novo já ultrapassou US$ 50 mil no país em 2026.

A indústria chinesa ganhou escala oferecendo carros elétricos e híbridos com preços agressivos, muita tecnologia e ciclos de desenvolvimento cada vez mais rápidos. Na própria China, a forte concorrência ajudou a reduzir os preços dos elétricos: segundo a Agência Internacional de Energia, quase 70% dos modelos elétricos vendidos no país em 2025 já custavam menos que equivalentes a combustão, mesmo antes dos incentivos governamentais.

Abrir completamente o mercado, porém, traz o risco oposto. As montadoras americanas e sindicatos argumentam que fabricantes chineses chegam aos mercados externos apoiados por subsídios, enorme escala produtiva e custos que empresas locais têm dificuldade para acompanhar. Uma entrada rápida poderia pressionar preços para baixo, mas também fábricas, fornecedores e empregos no país.

Ford Mustang 2026
Ford Mustang 2026 Imagem: Divulgação

Esse dilema já apareceu em outros mercados. A expansão das marcas chinesas tem sido rápida em países que adotaram barreiras menores, ao mesmo tempo em que governos tentam encontrar formas de preservar produção e empregos locais sem simplesmente eliminar a concorrência.

Nem mesmo dentro do governo americano existe uma posição completamente uniforme sobre como fazer isso. Em setembro, o presidente Donald Trump afirmou que aceitaria fabricantes chineses construindo carros nos Estados Unidos desde que instalassem fábricas e empregassem trabalhadores americanos. A ideia entra em choque com uma legislação que pode impedir empresas chinesas de produzir no país independentemente da localização de suas fábricas.

É justamente esse bloqueio que as montadoras agora querem tornar permanente. A Alliance for Automotive Innovation pediu ao Congresso que aprove a legislação ainda neste ano, alegando tanto os riscos de vigilância quanto a ameaça que uma entrada em grande escala das marcas chinesas representaria para fabricantes que já investiram bilhões de dólares nos Estados Unidos.

Ricardo Meier

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