Casamento em crise? CAOA e Chery disputam paternidade de marcas no Brasil

Sócias desde 2017, empresas seguem caminhos separados com novas marcas chinesas; até a esquecida Rely pode voltar
Chery Stockman

Chery Stockman | Imagem: Divulgação

CAOA e Chery continuam sócias no Brasil, mas a relação entre as duas empresas ganhou uma configuração curiosa nos últimos anos. Enquanto mantêm a CAOA Chery, cada lado passou a construir seus próprios caminhos com outras marcas chinesas, algumas delas pertencentes ao próprio grupo Chery.

A situação ficou mais evidente com Omoda e Jaecoo. As duas marcas chegaram ao Brasil por uma operação independente da CAOA, apesar da associação existente desde 2017. Mais recentemente, a Chery confirmou também a iCAUR para o mercado brasileiro, novamente fora da estrutura da CAOA Chery.

A CAOA fez movimento semelhante na direção oposta. Em 2025, o grupo brasileiro anunciou uma parceria com a Changan, uma das maiores fabricantes chinesas, incluindo também a marca Avatr. A Changan já está no mercado brasileiro e representa uma alternativa importante para a CAOA ampliar sua atuação sem depender exclusivamente da antiga parceira.

Esse arranjo começa a produzir situações incomuns. A mais recente envolve uma picape híbrida plug-in a diesel da Chery conhecida como Stockman.

Chery Stockman
Chery Stockman Imagem: Divulgação

Chery registrou Stockman no Brasil

AUTOO verificou que a Chery Automobile Co. Ltd. solicitou ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o registro da marca CHERY STOCKMAN em 24 de agosto de 2026. O pedido, de número 944939333, pertence à classe 12, que inclui automóveis e outros veículos, e foi publicado pelo INPI em setembro.

O registro não confirma que a picape será lançada no Brasil, mas mostra que a fabricante tomou a precaução de proteger comercialmente o nome no país.

Há, porém, uma complicação. A marca Chery é explorada no Brasil pela associação com a CAOA, enquanto a fabricante chinesa vem criando operações independentes para outras marcas de seu grupo.

Segundo a Quatro Rodas, uma alternativa estudada para comercializar a Stockman seria ressuscitar a Rely, marca de veículos comerciais do Grupo Chery que já passou pelo Brasil.

CAOA Chery Tiggo 7 2027
CAOA Chery Tiggo 7 2027 Imagem: Divulgação

A informação chama atenção porque o pedido encontrado pelo AUTOO no INPI não é para Rely Stockman, mas para CHERY STOCKMAN. Portanto, ainda não está definido publicamente qual bandeira seria usada caso a picape seja efetivamente lançada no país.

Rely já esteve no Brasil

Para quem não se lembra da Rely, há uma boa razão. A passagem da marca pelo mercado brasileiro foi curta e ocorreu há mais de uma década.

Ela apareceu por aqui no Salão do Automóvel de São Paulo de 2012 e começou a ser comercializada no ano seguinte como divisão de veículos comerciais da Chery. Sua oferta era formada por pequenos utilitários de origem chinesa, entre eles a picape Q22B.

Naquela época, a proposta da Rely estava muito distante da picape que agora pode trazer seu nome de volta. A Stockman é uma picape média de 5,45 metros de comprimento, equipada com sistema híbrido plug-in que combina motor 2.5 turbodiesel e propulsão elétrica.

Recuperar uma marca associada no passado a pequenos veículos de entrega poderia parecer uma escolha estranha. O próprio mercado brasileiro, porém, oferece um exemplo recente de como uma fabricante chinesa praticamente esquecida pode retornar com outra imagem.

A Rely teve passagem discreta pelo Brasil
A Rely teve passagem discreta pelo Brasil Imagem: Divulgação

Changan também já esteve por aqui

A Changan que hoje está associada à CAOA não é uma estreante no Brasil. A fabricante chegou ao país em 2006 com o nome Chana e uma linha formada principalmente por pequenos veículos comerciais.

Em 2011, passou a adotar por aqui seu nome internacional Changan. A operação era conduzida pela importadora Tricos Districar e acabou desaparecendo do mercado brasileiro.

Mais de uma década depois, a marca voltou em condições completamente diferentes. A nova Changan tem parceria com a CAOA e produtos muito distantes dos pequenos utilitários que marcaram sua primeira passagem pelo país.

O longo intervalo também ajudou a separar as duas fases. Para uma parcela considerável do público atual, a Changan que voltou ao Brasil não carrega necessariamente a imagem da antiga Chana.

A Rely poderia se beneficiar do mesmo fenômeno. Seus antigos comerciais desapareceram há mais de dez anos e a Stockman não guarda praticamente nenhuma relação de posicionamento com aqueles veículos. A marca poderia, na prática, ganhar uma nova identidade no mercado brasileiro.

Exeed RX
Exeed RX Imagem: Divulgação

Parceria cada vez mais peculiar

A possível volta da Rely é apenas mais um capítulo de uma relação que mudou bastante desde que CAOA e Chery se associaram.

A Exeed já havia exposto parte dessa tensão. Anunciada anos atrás como uma futura marca da CAOA, ela acabou não chegando ao mercado brasileiro naquele momento. Posteriormente, a Chery passou a estruturar diretamente no país marcas como Omoda e Jaecoo, sem participação da sócia brasileira.

Enquanto isso, a CAOA encontrou na Changan uma nova parceira e passou a trabalhar também com a Avatr. Chery e CAOA, portanto, permanecem juntas na operação que vende modelos como Tiggo 7 e Tiggo 8, mas simultaneamente constroem negócios próprios com outras bandeiras chinesas. A Stockman pode tornar essa divisão ainda mais visível. 

Ricardo Meier

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