Gasolina com 35% de etanol: saiba o que deverá mudar na compra do carro usado
Mistura ainda está em teste, mas modelos movidos só a gasolina serão os primeiros a sentir desconfiança dos compradores
Se você está de olho em um carro usado, provavelmente já se preocupa com quilometragem, batidas e multas atrasadas. Agora entra mais um item nessa conta, o combustível que esse carro vai beber daqui para a frente.
O plano de testes da gasolina E35 foi formalizado pelo Ministério de Minas e Energia em 18 de setembro, e qualquer aumento na mistura só aconteceria após resultados técnicos e aprovação do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).
VEJA TAMBÉM:
Então, nada muda no posto amanhã. A pesquisa integra a Rede de Pesquisa Combustível do Futuro e tem vigência prevista até 31 de dezembro de 2027.
Para quem perdeu os últimos capítulos, o CNPE aprovou a elevação temporária de 30% para 32%, por 180 dias, com possibilidade de prorrogação, e a E32 chegou às bombas em 1º de agosto. Sua permanência está condicionada justamente aos testes do E35, e que 35% é o teor máximo autorizado pela Lei do Combustível do Futuro (14.993/24).
Receba notícias quentes sobre carros em seu WhatsApp! Clique no link e siga o Canal do AUTOO.
O governo sustenta que os ensaios usados como base para a E32 indicaram comportamento equivalente ao de misturas com menor teor de etanol, sem danos no funcionamento dos veículos, inclusive nos equipados com motores não flex.
Só que isso está longe de ser consenso. Profissionais questionaram a ausência de testes específicos e longos de durabilidade para a E32. Mesmo assim, o plenário considerou a representação improcedente e não suspendeu a utilização da E32. A boa notícia é que a nova rodada deve preencher esse buraco, já que o processo inclui avaliações de consumo, emissões e, especialmente, durabilidade de motores, ponto que ficou de fora dos estudos anteriores.
Por que isso interessa a quem vai comprar usado?

Imagem: Reprodução internet
Porque o mercado está cheio de carros com alguns anos nas costas. É nesse grupo mais velho que mora a maior preocupação. Segundo dados da Senatran, mais de 30 milhões de veículos não são preparados para operar com altas proporções de etanol, número destacado pela Federação Brasileira de Veículos Antigos ao criticar a E32.
Boa parte dessa frota é composta por modelos antigos usados no dia a dia, especialmente por proprietários com menor poder aquisitivo. Em outras palavras, muita gente compra carro usado justamente porque é o que cabe no bolso, e é exatamente esse carro que pode sentir mais se a mistura subir.
Então, o bolso pode doer também na hora de vender. Para o especialista em precificação Frederico Zornig, a nova mistura pode, sim, mexer nos preços dos usados.
Ele explica que o valor de um carro de segunda mão resulta de uma combinação de fatores como oferta, demanda, idade, conservação, consumo e a própria percepção do comprador. "Se a mudança na composição do combustível alterar a percepção de custo de uso ou manutenção de determinados modelos, em especial veículos mais antigos e movidos a gasolina, isso pode influenciar a demanda e, consequentemente, a disposição do mercado a pagar por esses veículos", afirma.
Segundo ele, esses modelos tendem a ser os mais afetados caso o consumidor passe a enxergar mais risco no uso. "Em pricing, o preço não é determinado apenas pelas características objetivas do produto, mas também pelo valor que o mercado atribui a elas. Se um modelo passar a ser percebido como menos adequado ao novo combustível, sua demanda pode ser impactada e isso pode pressionar o preço para baixo."
Flex, sairiam ganhando?

Imagem: Divulgação
Se o carro for flex, a situação é relativamente tranquila, porque o sistema eletrônico identifica a composição do combustível durante o funcionamento do motor e ajusta parâmetros como injeção e ignição. Zornig diz que eles podem conquistar uma vantagem diante dos carros que só aceitam gasolina, principalmente entre consumidores que enxergam na flexibilidade de combustível uma segurança extra.
Mas cada litro de etanol entrega cerca de 70% da energia do combustível fóssil, embora nos veículos mais recentes a eletrônica compense parte da conta. Se for um nacional movido só a gasolina, mas com injeção eletrônica, é preciso mais atenção, pois a maior parte desses modelos mais recentes já foi desenvolvida considerando a presença elevada de etanol no combustível brasileiro, e o estado de conservação passa a pesar mais.
Já os antigos, os carburados, os importados independentes e os esportivos pedem atenção redobrada. Os casos que exigem cuidado especial incluem veículos importados que não foram homologados para o mercado brasileiro, modelos muito antigos movidos exclusivamente a gasolina e carros de alta performance desenvolvidos para combustíveis com baixo teor de etanol.
Nos mais velhos, carburador, tanque metálico, bomba de combustível, mangueiras, retentores e itens de vedação podem ser mais sensíveis à maior concentração de etanol. Para quem está de olho nas novidades asiáticas, híbrido não é sinônimo de flex, porque o motor a combustão continua dependendo de um combustível compatível com o projeto mecânico.
Para quem vai vender o carro

Imagem: Agência Brasil
Será preciso separar o estoque por perfil de risco, incluir na vistoria de entrada uma checagem específica do sistema de combustível e documentar o que foi verificado. Mostrar anúncio o tipo de combustível e qualquer adaptação feita evita problemas no pós-venda, e no caso de importados e híbridos não flex vale buscar a posição do fabricante sobre compatibilidade e garantia.
Para o consumidor, é bom conferir o manual do fabricante ou por uma consulta à concessionária da marca para confirmar a compatibilidade com a gasolina atual. Depois vem o pedido das notas de manutenção, a atenção à partida a frio e à marcha lenta, e a desconfiança diante de falhas, cheiro de combustível ou dificuldade para pegar. Também é bom colocar na conta um possível aumento de consumo e a eventual troca preventiva de mangueiras e vedações.
