Nissan vai buscar na China novos carros para recuperar espaço no Brasil

Fabricante confirma que modelos desenvolvidos no país asiático serão vendidos no mercado brasileiro e promete renovar toda a gama latino-americana até o fim de 2027
Nissan NX8

Nissan NX8 | Imagem: Divulgação

A Nissan vai recorrer à sua operação na China para acelerar a renovação da linha de veículos no Brasil. A fabricante japonesa confirmou que modelos desenvolvidos no país asiático chegarão ao mercado brasileiro, uma das medidas previstas para tentar recuperar o espaço perdido nos últimos anos.

A confirmação partiu do presidente e CEO global da Nissan, Ivan Espinosa, durante uma agenda da fabricante no México. A empresa apresentou no país os planos da Nissan Vision para a América Latina e anunciou seis novos veículos e três tecnologias de eletrificação para a região nos próximos 12 meses.

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Em conversas com jornalistas brasileiros que participaram do evento, Espinosa foi além das informações divulgadas oficialmente pela Nissan e confirmou que o Brasil receberá produtos desenvolvidos na China.

“Podem esperar que vocês verão produtos novos na América Latina. São novas tecnologias que foram desenvolvidas pelos nossos engenheiros na China e complementadas pelo nosso conhecimento global”, afirmou o executivo ao Estadão.

A origem dos futuros modelos chama a atenção justamente pela situação que a Nissan enfrenta no Brasil. A participação da marca caiu de 3,1% entre janeiro e julho de 2025 para 2,7% no mesmo período deste ano. Pior que isso: se há cinco ela era a 9ª mais vendida, até aqui em 2026 figura num desconfortável 12º lugar.

Ivan Espinosa, CEO da Nissan
Ivan Espinosa, CEO da Nissan Imagem: Divulgação

Ao mesmo tempo, fabricantes chinesas aumentaram rapidamente sua presença por aqui. BYD e GWM já possuem operações industriais no país, e empresas como GAC, Geely e outras passaram a disputar segmentos nos quais as marcas tradicionais atuavam praticamente sozinhas até poucos anos atrás.

Agora, parte da resposta da Nissan a essa concorrência também virá da China.

Experiência chinesa será usada fora do país

A Nissan não é uma novata no maior mercado automotivo do mundo. A empresa atua há mais de duas décadas na China e mantém uma joint venture com a Dongfeng, relação que permitiu à fabricante japonesa desenvolver produtos específicos para aquele mercado.

Espinosa citou justamente essa experiência ao falar da chegada das novas concorrentes ao Brasil.

“Vemos o crescimento, com competidores que chegam de forma rápida e dinâmica. Mas temos mais de 20 anos operando na China, então não é algo novo para nós”, disse.

Nos últimos anos, a Nissan passou a aproveitar mais diretamente a engenharia chinesa para criar modelos eletrificados e reduzir o tempo de desenvolvimento. A intenção agora é levar alguns desses produtos para outros mercados.

Um possível candidato já apareceu no Brasil. O AUTOO mostrou em abril que o Nissan NX8 havia sido flagrado em testes no país. O SUV foi desenvolvido na China pela joint venture Dongfeng Nissan e estreou por lá com opções eletrificadas.

Nissan Kicks 2026
Nissan Kicks 2026 Imagem: Divulgação

Na ocasião, sua eventual venda no mercado brasileiro ainda era apenas uma possibilidade. A declaração de Espinosa não confirma especificamente o NX8, mas deixa claro que pelo menos alguns veículos desenvolvidos pela Nissan na China fazem parte dos planos para o país.

Renovação já começou com Kicks e Kait

A Nissan afirma que 100% de sua linha latino-americana estará renovada até o fim de 2027. A declaração pode dar a impressão de que até produtos recém-lançados serão substituídos, mas o processo ao qual a fabricante se refere já está em andamento.

No Brasil, dois exemplos são o novo Kicks e o Kait. Ambos são produzidos em Resende (RJ) e chegaram recentemente ao mercado dentro do atual ciclo de produtos da Nissan.

A questão está nos demais modelos. A gama brasileira ainda conta com veículos de projetos mais antigos, e alguns deles já começaram a deixar espaço para essa nova fase.

É o caso do Sentra. Como o AUTOO revelou em julho, a Nissan interrompeu a importação do sedã médio, embora unidades ainda possam ser encontradas nas concessionárias. O segmento também perdeu muito volume no Brasil nos últimos anos.

O Versa passa por uma situação diferente. O sedã compacto continua importante em alguns mercados da região e ganhou recentemente uma atualização no México. Por isso, a promessa de renovar toda a gama latino-americana não significa necessariamente que todos os nomes conhecidos desaparecerão.

Nissan Kait
Nissan Kait Imagem: Divulgação

Eletrificação terá três novas tecnologias

Outra lacuna que a Nissan pretende atacar é a dos eletrificados. A situação é curiosa para uma empresa que esteve entre as pioneiras do carro elétrico moderno com o Leaf, mas hoje possui participação pequena nesse mercado no Brasil.

A Nissan anunciou três novas tecnologias eletrificadas para a América Latina, sem detalhar como elas serão distribuídas entre os 39 mercados que fazem parte de sua operação regional.

Um dos próximos passos no Brasil será o X-Trail e-Power. Diferentemente de um híbrido convencional, o sistema da Nissan utiliza o motor a combustão para gerar eletricidade, enquanto a movimentação das rodas fica a cargo do motor elétrico.

A estratégia também permite à Nissan trabalhar com soluções criadas na China, onde a pressão das fabricantes locais acelerou o desenvolvimento de elétricos, híbridos plug-in e modelos com extensor de autonomia.

Dongfeng também olha para o Brasil

Há ainda outra conexão entre os planos chineses da Nissan e o mercado brasileiro. A Dongfeng prepara sua própria entrada no país e admite avaliar possibilidades de produção local.

Wang Jiong, CEO regional da fabricante chinesa para as Américas, afirmou recentemente que existem conversas tanto com a Nissan quanto com a Stellantis para uma eventual operação industrial brasileira.

Nissan X-Trail ePower
Nissan X-Trail ePower Imagem: Divulgação

No caso da Nissan, uma possibilidade levantada é a utilização da estrutura de Resende. Espinosa, porém, não confirmou qualquer acordo industrial entre as duas empresas no Brasil e se limitou a mencionar a relação que elas já mantêm globalmente.

Por isso, ainda não é possível ligar os futuros Nissan chineses a uma eventual produção nacional ou mesmo à operação brasileira da Dongfeng.

Seis novos carros, mas não necessariamente para o Brasil

A promessa feita no México também exige outra ressalva. Os seis novos veículos anunciados pela Nissan são destinados à América Latina como um todo, e não exclusivamente ao Brasil.

A região reúne 39 mercados, responde por quase 15% das vendas mundiais da fabricante e por aproximadamente 25% de sua produção. A Nissan estabeleceu como objetivo chegar a 500 mil veículos vendidos anualmente na América Latina.

O Brasil terá participação nessa renovação, mas a empresa ainda não revelou quantos dos seis produtos chegarão ao país nem quais serão eles.

O que Espinosa confirmou pela primeira vez é a origem de parte dessa nova gama. Para recuperar terreno diante das fabricantes chinesas, a Nissan pretende trazer ao Brasil justamente carros e tecnologias que aprendeu a desenvolver na China.

Ricardo Meier

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