''SUV dependência'': por que as marcas precisam tanto de utilitários esportivos em seus portfólios

Há marcas que hoje sobrevivem por conta de terem lançado ao menos um SUV. E quem não tem se prepara para mudar sua linha nos próximos anos
Volvo XC60 2019

Volvo XC60 2019 | Imagem: Divulgação

É praticamente um caminho sem volta: se uma marca de automóveis quer sobreviver no mercado precisa ter não apenas um, mas vários SUVs em seu portfólio. Quem já tem planeja mais e mesmo quem só vende esse tipo de veículo busca novas interpretações para ampliar o leque de opções.

No Brasil, esse sintoma tem sido muito claro. Há marcas que se beneficiam desse fenômeno, como a Jeep e a Land Rover que só vendem esse tipo de veículo, e montadoras que focaram em SUVs para ampliar seu mercado, como a Volvo e a BMW. Mas existe também quem só vive às custas de um modelo como é o caso da Citroën e da Nissan, cujas vendas do C4 Cactus e do Kicks representam quase dois terços de tudo que é emplacado no país.

Ou seja, o SUV é uma necessidade, mas não basta acreditar que um modelo apenas vai salvar a lavoura. É preciso ter opções para mais públicos e não é à toa que várias marcas já pensam em lançar mini-SUvs para substituir os atuais “aventureiros”, carros adaptados de hatches.

A seguir, Autoo apresenta um diagnóstico dessa “SUV dependência” no Brasil analisando 18 das 20 marcas mais vendidas – as duas exceções são justamente Jeep e Land Rover, que possuem 100% dos modelos nessa categoria, obviamente.

Volvo

Porcentagem de vendas de SUVS – 87%

A marca sueca é a prova de que investir em SUVs dá muito resultado. Embora tenha trazidos sedans e peruas para o Brasil nos últimos tempos é o trio XC40, XC60 e XC90 que dita as regras. O XC60 sempre foi bem vendido por aqui, mas foi fundamental para a Volvo complementar a gama com modelos mais caros e menores e assim oferecer várias opções aos seus clientes. Hoje ela é a 19ª marca mais vendida do mercado e uma das duas que não possui produção nacional.

BMW

Porcentagem de vendas de SUVS – 66%

A BMW tem priorizado os utilitários esportivos e crossovers em seu portfólio e isso tem dado resultado. Hoje são sete modelos incluindo o imenso X7, mas é o X1 quem dá as cartas na marca alemã, com um terço das vendas totais no Brasil. Ao todo dois em cada três veículos da BMW são SUVs, um percentual muito significativo já que a marca tem no sedan Série 3 um importante produto. É uma situação ideal no atual cenário.

Citroën

Porcentagem de vendas de SUVS – 60%

Após lançar o C4 Cactus em 2018, a Citroën deu um enorme salto. O SUV compacto hoje representa 60% das suas vendas no Brasil e é o responsável pela marca voltar a crescer, a despeito da queda nos emplacamentos de outros modelos. Mas nesse caso trata-se de uma situação de risco já que marca francesa depende apenas de um modelo para sobreviver em nosso mercado. Quando deixar de ser novidade, o Cactus pode perder notoriedade e devolver à Citroën aos tempos das vacas magras.

Nissan

Porcentagem de vendas de SUVS – 58%

A Nissan repete o problema da Citroën: está muito dependente do Kicks que responde por 58% das suas vendas, 10% a mais que em 2018. É fato que o restante do portfólio da marca japonesa está enfraquecido. O March vende pouco, o Sentra é um produto de nicho e a Frontier é a lanterninha entre as picapes médias. Apenas o Versa ainda atenua a onipresença do SUV, mas está num segmento em evolução – embora vá ganhar uma nova geração por aqui. A Nissan poderia ter mais SUVS por aqui, mas a vinda o X-Trail foi suspensa indefinidamente.

Peugeot

Porcentagem de vendas de SUVS – 53%

A montadora francesa é um dos casos mais graves no Brasil. Ela tem vendido muito pouco e em 2019 está emplacando ainda menos. O que assusta é que a Peugeot tem três SUVs em seu portfólio, ou seja, sua atuação no segmento está dentro das expectativas, mas as vendas não. O 2008 nunca justificou o investimento em uma linha nacional (ele vende menos que modelos importados) e o belo 3008 tem uma presença modesta no segmento, sem falar no quase desconhecido 5008. A grosso modo, a Peugeot já usou sua cartada mais importante e isso não surtiu efeito. É de se preocupar.

Kia

Porcentagem de vendas de SUVS – 48%

A Kia sempre teve tradição em SUVs a começar pelo primeiro Sportage. A ele se somaram o Sorento e o Mohave, mas falta à marca sul-coreana um modelo compacto. Quer dizer, não falta já que ela vende no exterior utilitários desse porte. O problema é que o Brasil não é o prioridade para a matriz. Quem sabe quando o Seltos, seu SUV compacto, for lançado por aqui a situação mude. Ainda assim metade de suas modestas vendas é desse nicho.

 

Ford Territory 2020
Ford Territory 2020
Imagem: Divulgação

 

Mitsubishi

Porcentagem de vendas de SUVS – 47%

Se para uma marca genérica vender 47% de SUVS é bom para a Mitsubishi é ruim. A marca japonesa, se não é uma Jeep, ao menos possui uma longa tradição em veículos off-road. E o que não falta em seu portfólio é SUV: ASX, Eclipse Cross, Outlander e a família Pajero. Mesmo assim suas vendas têm sido um tanto decepcionantes – ela poderia ter uma presença muito maior no mercado.

CAOA Chery

Porcentagem de vendas de SUVS – 47%

A sociedade entre a brasileira CAOA e a chinesa Chery tem focado nos SUVs. São dois modelos e com um terceiro a caminho, além de um aventureiro. Não é à toa que hoje quase metade do que ela vende responde como utilitário esportivo. Até 2018 esse percentual era zero. O crescimento de vendas do Tiggo 5X deve fazer essa participação ser ampliada em 2019.

Audi

Porcentagem de vendas de SUVS – 46%

Comparada à rival BMW, a Audi tem sido uma decepção entre os SUVs. A marca ainda não conseguiu ter uma penetração nesse segmento como se esperava. O Q3, que deveria ser seu carro-chefe, está emplacando o mesmo que o maior e mais caro Q5. Com isso, a participação dos SUVs caiu de 2018 para 2019. Mas poderia ser maior já que a marca decidiu não vender o menor Q2 no Brasil, por exemplo.

Honda

Porcentagem de vendas de SUVS – 38%

Com uma linha de produtos um tanto restrita, a Honda depende do HR-V para vender bem entre os utilitários esportivos já que o CR-V tem preço proibitivo. Como tem um volume de vendas significativo para um portfólio restrito, a montadora está numa posição confortável. E ainda tem o Fit disfarçado de ‘SUV’, o WR-V, para quem não tem cacife para comprar o irmão maior.

Mercedes-Benz

Porcentagem de vendas de SUVS – 33%

A participação de SUVs na Mercedes-Benz só não é maior porque a marca é a única que atua no segmento de luxo e também de comerciais leves. Mas ainda assim seus produtos não emplacam a metade do que a BMW consegue mesmo tendo modelos sendo montados no Brasil. Talvez a situação mude com o esperado GLB que está chegando ao Brasil.

 

Acima o Toyota Raize lançado recentemente no Japão
Acima o Toyota Raize lançado recentemente no Japão
Imagem: Divulgação

 

Hyundai

Porcentagem de vendas de SUVS – 32%

Entre as marcas que atuam no segmento de entrada, a Hyundai é a que mais possui representatividade entre os SUVs. Tudo graças ao Creta que equivale a 27% de tudo que é emplacado em nosso mercado. Além dele há o ix35 e o New Tucson, além de vendas restritas do Santa Fe. É um panorama bastante confortável para a marca sul-coreana, sem dúvida, mas não vai durar para sempre.

Renault

Porcentagem de vendas de SUVS – 23%

Quarta marca mais vendida do Brasil, a Renault é a única no mercado a ter dois SUVs compactos em sua linha, o Duster e o Captur. Embora sejam baseados na mesma plataforma, eles têm conseguido atingir públicos diferentes e com isso ajudam como nunca a marca francesa a vender bem por aqui – que ainda conta com impressionante Kwid nessa equação. Ou seja, a Renault também vai bem nesse sentido e se deu ao luxo de colocar o Koleos na geladeira.

Ford

Porcentagem de vendas de SUVS – 15%

Pioneira entre os SUVs compactos com o EcoSport, a Ford se perdeu no embalo do sucesso. A marca demorou a lançar uma segunda geração que não conseguiu conter a onda de concorrentes. Hoje o SUV tem participação pequena na categoria e quem quiser outro modelo na Ford tem que pular para o caro Edge. No desespero, a montadora americana agora prepara-se para lançar o Territory, um SUV médio projetado na China e que já chegará com um estilo datado.

Volkswagen

Porcentagem de vendas de SUVS – 10%

A Volkswagen foi a marca que mais “dormiu no ponto” em matéria de SUV. Passou anos para lançar um modelo médio (Tiguan) e uma década para chegar ao modelos compactos. Agora quer recuperar o tempo perdido com uma série de modelos, o primeiro deles o T-Cross, que chegou ao Brasil em 2019. O impacto da introdução desse SUV compacto foi imenso: de 2%, a participação de SUVs saltou para 10% em 2019, aí com a ajuda do Tiguan Allspace também. Com novidades como o Tarek, a VW deve chegar a um bom nível de participação nessa categoria finalmente.

 

Mercedes-Benz GLB 2020
Mercedes-Benz GLB 2020
Imagem: Divulgação

 

Toyota

Porcentagem de vendas de SUVS – 8%

A Toyota é outra que está ligada às origens dos SUVs há várias décadas. O Bandeirante flertou com essa proposta há muito tempo, mas a montadora japonesa, como sempre, é lenta para entrar novos segmentos. Hoje seu produto de maior volume, CH-R, foi feito para a Europa e não se encaixa em mercados como o Brasil. A solução, no entanto, está à caminho, com um produto nacional que começará a ser produzido em Sorocaba em 2020. Enquanto isso, ela é representada pelos caros SW4 e RAV4.

Chevrolet

Porcentagem de vendas de SUVS – 5%

A relação da Chevrolet com SUVs no Brasil é curiosa. Ela foi uma das primeiras a desenvolver um veículo assim de uma picape (Blazer) e fez bastante sucesso na época. Depois emprestou o Suzuki Vitara, rebatizado como Tracker, para fazer frente ao mercado de médios. Só no final da década passada ela trouxe seu primeiro SUV moderno, o Captiva, que teve um bom início de vendas. Ainda assim, demorou para o novo Tracker ser lançado importado no México. Este ano, com a troca de gerações, a participação dos SUVs caiu, mas isso deve mudar com o novo modelo que será feito por aqui.

Fiat

Porcentagem de vendas de SUVS – 0%

Sim, a Fiat hoje não tem nenhum SUV em sua linha. O único modelo do gênero foi o Freemont, um Dodge Journey rebatizado, já que a marca não ousou lançar por aqui o 500X. É claro que é um cenário ruim para a marca, mas ele é justificado pelo fato de a Jeep vender muito bem e também porque a picape Toro é praticamente um “SUV com caçamba”. Mas a Fiat está preparando um novo produto, também derivado dessa plataforma comum. Por mais que a FCA trate a Jeep como sua representante no mundo dos utilitários esportivos, não dá para ignorar o apelo do SUV em suas demais marcas sob pena de desaparecer do mercado.

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